Quando os homens de gravata falam em herança, eles pensam em imóveis, ações, números extensos impressos em papéis timbrados. Coisas frias. Coisas que o tempo corrói ou que os herdeiros disputam sem poesia.
Meus bens são de outra natureza. São diversos, mutáveis e intangíveis. Se alguém tentasse fazer o meu inventário hoje, se perderia nos arquivos da minha própria mente.
De um lado da mesa, senta-se Léo Pajeú. Ele traz os bolsos cheios de sol, versos coloridos, contos que alimentam a infância e romances que costuram a vida. Traz o estalar do cordel, o ritmo do povo, a luz que insiste em brilhar mesmo quando o dia é cinzento. É o meu lado que abraça o mundo.
Do outro lado, nas sombras onde a lâmpada não alcança, senta-se Léo Bargom. Ele não fala muito. Apenas sorri de canto, segurando o manuscrito de um suspense psicológico ou o roteiro de um terror que faz o peito congelar. Bargom conhece os mistérios da noite, o medo do desconhecido, as verdades que só a escuridão tem coragem de sussurrar.
Eu sou o ponto de encontro entre os dois. O guardião dessa dualidade.
Se existe um futuro — e se a eternidade não for apenas um conceito inventado por nós, escritores, para aplacar o medo do esquecimento —, o que deixo escrito é o meu verdadeiro patrimônio. Não deixo terras, deixo territórios imaginados. Não deixo moedas, deixo palavras. E, se a eternidade de fato existir, que ela seja uma imensa biblioteca onde a luz de Pajeú e a escuridão de Bargom possam, finalmente, descansar na mesma prateleira.
2 respostas
Belíssimo inventário, amigo..e é esse encontro dos dois Léos que o torna único como escritor, poeta e amigo.
Muito obrigado por sua leitura e comentário, você é uma linda referência, uma incentivadora incrível, agradeço de coração sua presença literária em minha caminhada…