Na vida de Teobaldo nada vinha fácil; porém nunca se deixou abater por causa de uma rensga aqui ou acolá! Mas naquela noite de São João, o homem ficou bravo. Com a aproximação dos dias de festas juninas, lá estava Teobaldo montando seu tendeiro de coisas para os dias festivos. Lenha boa de fogo para a fogueira, milho verde para assar na brasa e batata-doce para assar no borralho. Na boca da noite, já de chapéu de palha, calça remendada e bigode alinhado, foi para a frente da casa botar fogo na fogueira.
Quando a labareda já estava lambendo o céu, os compadres foram chegando. Cada um com seu banquinho e suas espigas de milho para assar. Uma tradição junina. Era só esperar firmar o braseiro para o cheirinho de milho assado subir. Teobaldo se gabava: “Este ano fui esperto, plantei três leiras de batatas, deu foi bem!” E segurava seu saco de batatas como quem segura um troféu. Os compadres observavam com desdém. Olhos de quem quer comprar e não pode. Daqui a pouco a prosa começou a ser regada com quentão, preparado por Dona Maria, que logo colocou o caldeirão ao lado do braseiro para não esfriar, e muito milho verde assado. Cada um cuidando do seu espeto.
A prosa fluiu. Teobaldo afastou as brasas para o lado, abriu o borralho, enfiou algumas batatas e as cobriu. Os compadres o repreenderam: — Ô, cumpadre, vai estragar as brasas! Mas Teobaldo não deu importância. Como ia demorar até ficarem no ponto para comer — diziam os mais velhos que batata mal assada dava constipação —, Teobaldo convidou Maria para dar uma olhada na quadrilha que estava rolando na frente da igreja de Santo Antônio. Foi aí que os compadres resolveram aprontar com o amigo. Assim que ele se ausentou, desenterraram as batatas, colocaram pedras no lugar e as cobriram. Passaram as batatas para o borralho do vizinho do lado, que acompanhava a resenha dos compadres.
Alguns minutos depois, chegou o dono das batatas se gabando do show que deu na quadrilha. Pegou um espeto e deu uma cutucada nas suas batatas para conferir: “Batata nova é mais dura, vai demorar um pouco”. Pôs-se a aguardar. Enquanto isso, os compadres não conseguiam olhar um no outro e se desmanchavam em gargalhadas. Um chegou a cair do banco. Não viam a hora de presenciar o Teobaldo desistir de esperar e dar de cara com as pedras assando. O cheiro das batatas assando na fogueira vizinha começou a exalar por todo o entorno. Quanto mais o cheiro subia, mais Teobaldo se orgulhava da boa colheita e mais causava risos em todos.
A essa altura, até o povo da fogueira vizinha já se juntava na fogueira do Teobaldo. Todos aguardando o espetáculo. Maria chegou com o prato para pegar a sua. Sem perder mais tempo, Teobaldo espalhou o borralho e gritou: — Chega, cumpadre, vamos devorar essas danadas de boas! Quando espetou com força o espeto, com o impulso quase caiu em cima do braseiro. Só se ouvia a vizinhança toda se acabando de rir da peça que os compadres pregaram no coitado do Teobaldo, que proferia todo seu repertório de palavrões. Para acalmar a fera, os vizinhos entregaram-lhe a bacia de batatas bem assadas e macias como ele queria. No final, todos riram muito da situação e a prosa continuou madrugada adentro, celebrando a noite de São João com muito bom humor e camaradagem.
2 respostas
Ainda bem q levaram na brincadeira. Tenho certeza de que vc vai escrever a revanche de Teobaldo. To aguardando. Qdo eu era adolescente confundi tb pedra com batata q minha avó preparava num fogareiro de carvão. Queimei a ponta dos 5 dedos.
Kkkkkk! A imaginação viaja! Adoro o nome Teobaldo, encaixa em qualquer história.