É sempre nas manhãs de segunda-feira. As manhãs das segundas-feiras são sempre referidas como dias chatos e indesejados talvez porque amanhecem imediatamente após os fins de semana: dias leves, sem compromissos, alegres, de descanso. Eta! Lá vem o dia de recomeçar o trabalho! Lamentavelmente foi-se criando uma mentalidade de queixas e insatisfações em relação aos empregos, seja pelo baixo salário, seja pela distância e por conseguinte a necessidade de transporte muitas vezes em condições precárias ou até mesmo por nem sempre se exercer a função que de fato provoca autorrealização, ou seja, trabalha-se porque precisa pagar as contas e o fator da escolha vocacional, aquilo que, como dissera Confúcio: “Escolha um trabalho que você ame e não terá que trabalhar um único dia em sua vida”, é desconsiderado. É fundamental que a pessoa busque a realização profissional plena, cujo trabalho seja visto como uma extensão de valores pessoais, e não apenas uma obrigação. Mas não é sobre isso que queremos falar. Voltemos às manhas de segunda-feira.
Para elas essas manhãs são sempre especiais. Desde o domingo ela que mora na zona rural já entra em contato avisando que deseja visitar aquela que reside na cidade para juntas cumprirem aquilo que timidamente iniciou como um pedido de empréstimo tornou-se um cerimonial semanal cuja troca a cada novo dia tem se tornado mais enriquecedora regada por gotas temporais de conversa, opiniões, narrativas das experiências de leitura.
O tempo. Ah, o tempo! Pelo whatsApp antecipamos o contrato de quantos minutos reservaríamos para nosso encontro, no entanto nem sempre o respeitamos, pois o que nos une nos é tão caro que prende os nossos sentidos de tal forma que nem atentamos para o relógio, visto que, o tempo dedicado a esse encontro, a pausa nos afazeres diários que gentilmente estabelecemos para nutrir essa nossa paixão, é um presente concedido como autocuidado, um respeito ao querer, uma licença ao novo que se estabelece por meio de tudo que nos afeta, nos atravessa.
Ela chega. Preciso, além de acolhê-la, protegê-la de Milly, a minúscula pincher, que a ela lhe parece um gigante, tamanho medo sentido. Posso ver o pânico instalado em seu rosto. Ela entra, suspira aliviada por eu tê-la protegido da canina e esboça o mais lindo e largo sorriso, nos abraçamos e vejo que há uma sacola em sua mão. Ali dentro está o tesouro que nos une, as preciosidades brotadas no recôndito de ilimitadas minas lapidadas por meio de estudos, alto investimento financeiro e de tempo, de entrega ao ofício, uma verdadeira escavação para extração de minérios valiosos que dependem de longo prazo de maturação e são eternizados na mente e na vida daqueles que se dedicam a manuseá-los.
Ela não aceita um café comigo, ainda que seja cedo. Tem pressa em resolver o que viera fazer. Mas percebo que está faminta pelo novo, sedenta pelas trocas. As palavras saem atropeladas. Nós duas nos sobrepomos em discutir detalhes, percepções coincidentes, em questionar posturas dos envolvidos, em admirar posicionamentos, escolhas, começos e finais entre risos e feições adversas.
Ela põe sobre a mesa da cozinha a sacola anunciando que anseia por realizar a troca dos exemplares levados na manhã de segunda-feira anterior. Já os tendo devorado retorna para a aquisição que lhe fará companhia ao longo da nova semana. E pensar que da primeira vez só quis levar uma obra apesar da minha insistência para que levasse mais.
Ela me segue até as estantes e escolhe os diamantes da vez. Outro dia ela me disse:
Devo estar te incomodando com essas visitas rotineiras! Ao que de imediato respondi: É um prazer recebe-la! É uma alegria poder servi-la! Que eu sempre tenha livros pra te emprestar.
Aos que se questionam sobre a relevância de se ter uma biblioteca em casa, ainda que pequenina, eis que esta pode ser uma resposta: matar a fome de alguém.
Uma resposta
Exatamente assim. Tenho ciúmes somente de obras difíceis de encontrar. Lembro de um livro q li adolescente A Sexta Janela de Claude Jauniere – Coleção Rosa – q as traças comeram. Ficava na casa de férias da minha avó. So consegui adquiri-lo qdo meu filho, ja adulto, me presenteou com uma edição perdida num sebo no RS através da Internet. Esse não empresto kkkkk. Os demais eu ate gosto q circule mas anoto pra quem emprestei.