A Solidão acordou e olhou em volta. Nenhum ruído na cidade ainda envolta na neblina. Ela mesma era feita de sombra e brisa, uma presença que não bate à porta, apenas se instala como quem não quer atrapalhar. Entra pelos pensamentos, pelo olhar que se perde no vazio. Com seu manto sem cor caminhou pela rua, devagar. Seus olhos, atentos e penetrantes, guardavam uma beleza que só se revelava de dentro para fora.
Na praça abandonada, sob a luz fraca de um poste , encontrou Tristeza, sentada no banco, curvada e abraçada aos próprios joelhos.
— Você por aqui? — murmurou Solidão, com um meio sorriso cansado.
— Sempre venho quando chove por dentro — respondeu Tristeza.
Sem levantar os olhos, trazia no rosto os traços da saudade; no olhar, a profundidade de um poço.
—Fui chamada.
As duas se entreolharam , pois tinham uma intimidade antiga.
— Ele me deixou entrar hoje — continuou Tristeza, apontando com um gesto de cabeça, para um homem que andava pela cidade, arqueado.
— Eu já estava lá —comentou Solidão. Ele achava que era só cansaço.
As duas riram, baixinho.
Tristeza tirou do bolso uma fotografia amarelada, rasgada num canto e entregou à Solidão. Esta olhou a imagem com cuidado, depois guardou em sua caixinha de ausências.
— Lembra de quando moramos naquela moça que escrevia cartas para ninguém? — perguntou Solidão, com um sorriso suave.
— Ela nos tratava como visitas poéticas. Bebia chá e escrevia poemas e mais poemas e mais poemas.
— Quase não conseguimos ir embora dali. Era escritora e poetisa .
Andaram mais um pouco pelas ruas, pensando: — Em algum momento da vida todo coração humano abriga um espaço só nosso.
De repente, um ruído leve, quase o passo de uma criança. As duas se viraram. Era a Esperança, que se aproximava sem medo.
Ficaram ali, as três, abraçadas. Compartilhando silêncios.
— Soube que vocês estavam aqui — finalmente argumentou Esperança, com os olhos de um verde vivo.
— Vim lembrar que não precisam ficar para sempre.
Solidão soltou um meio riso .
— Sempre aparece alguém dizendo isso.
Tristeza não riu. Apenas apertou os braços contra o peito.
— Ficar é o que nos resta. Não temos mais forças para sair daqui.
A Esperança então comentou, entendendo o momento delicado.
— Vocês confundem ficar com existir. Uma coisa não garante a outra.
— E você confunde palavras bonitas com saída — retrucou a Solidão. — Já ouvimos promessas. Nenhuma porta foi aberta.
— Porque vocês esperaram portas — disse a Esperança, tranquila. — Eu não trago portas, mas pequenos passos.
Tristeza ergueu os olhos pela primeira vez.
— Passos para onde ?
Esperança sorriu, mas havia firmeza ali.
— Se vocês mudarem o jeito de pisar, certamente sairão da mesmice de ficar.
Solidão cruzou os braços exclamando:
— Isso é crueldade! Parece que a culpa é nossa!
— Não é culpa — respondeu a Esperança, já um pouco impaciente — É possibilidade. Vocês ficam tanto tempo olhando para o chão que se esquecem que qualquer movimento já leva a outro caminho.
Tristeza hesitou.
— E se for só mais um engano?
A Esperança inclinou a cabeça, pensativa.
— Então será um engano em movimento. Um erro, enquanto caminha, ensina muito. Certeza parada não muda nada.
O silêncio caiu entre elas, pesado, mas diferente.
Solidão descruzou os braços olhando pra Esperança.
— E você… fica?
— Fico enquanto vocês derem um passo — disse a Esperança. — Depois, sigo dentro de vocês. Sou direção, percebem?
Tristeza respirou fundo, aspirando o ar pela primeira vez em muito tempo e falou:
— Um passo… só um?
— Só um já desmonta o que parecia eterno.
As duas se entreolharam. E, sem perceberem direito como aconteceu, moveram-se. Pequeno, um passinho tímido, mas já não estavam exatamente no mesmo lugar.
Tristeza não desapareceu de imediato, ela apenas adormeceu… no colo de alguém.
Solidão não se foi, é claro, mas deu espaço a algo novo.
A cidade ainda dormia, porém agora, em algumas janelas, começavam a surgir pequenas frestas de luz.
2 respostas
Uau! Bela crônica reflexiva! Uma parábola! Parabéns , querida! Palavras que edificam.
Obrigada. Em algum momento de nossa vida nós as conhecemos, né?