Transformando histórias nordestinas em patrimônios de leitura

Ecos Silenciosos da Alma, conto da Eliane Seixas

        A Solidão acordou e olhou em volta. Nenhum ruído na cidade ainda envolta na neblina. Ela mesma era feita de sombra e brisa, uma presença que não bate à porta, apenas se instala como quem não quer atrapalhar. Entra  pelos pensamentos, pelo olhar que se perde no vazio. Com seu manto sem cor  caminhou pela rua, devagar. Seus olhos, atentos e penetrantes, guardavam uma beleza que só se revelava de dentro para fora.

        Na praça abandonada, sob a luz fraca de um poste , encontrou Tristeza, sentada no banco, curvada e abraçada aos próprios joelhos.

        — Você por aqui? — murmurou Solidão, com um meio sorriso cansado.

        — Sempre venho quando chove por dentro — respondeu Tristeza.

Sem levantar os olhos, trazia no rosto os traços da saudade; no olhar, a profundidade de um poço.

        —Fui chamada.

As duas se entreolharam , pois tinham uma intimidade antiga.

        — Ele me deixou entrar hoje — continuou Tristeza, apontando com um gesto de cabeça, para um homem que andava pela cidade, arqueado.

        — Eu já estava lá —comentou Solidão. Ele achava que era só cansaço.

        As duas riram, baixinho.

        Tristeza tirou do bolso uma fotografia amarelada, rasgada num canto e entregou à Solidão. Esta olhou a imagem com cuidado, depois guardou em sua caixinha de ausências.

        — Lembra de quando moramos naquela moça que escrevia cartas para ninguém? — perguntou Solidão, com um sorriso suave.

        — Ela nos tratava como visitas poéticas. Bebia chá e escrevia poemas e mais poemas e mais poemas.

        — Quase não conseguimos ir embora dali. Era escritora e poetisa .

        Andaram mais um pouco pelas ruas, pensando: — Em algum momento da vida todo coração humano abriga um espaço só nosso.

De repente, um ruído leve, quase o passo de uma criança. As duas se viraram. Era a Esperança, que se aproximava sem medo.

        Ficaram ali, as três, abraçadas.  Compartilhando silêncios.

— Soube que vocês estavam aqui — finalmente argumentou Esperança, com os olhos de um verde vivo.

— Vim lembrar que não precisam ficar para sempre.

        Solidão soltou um meio riso .
        — Sempre aparece alguém dizendo isso.        

        Tristeza não riu. Apenas apertou os braços contra o peito.
        — Ficar é o que nos resta. Não temos mais forças para sair daqui.

        A Esperança então comentou, entendendo o momento delicado.
        — Vocês confundem ficar com existir. Uma coisa não garante a outra.

        — E você confunde palavras bonitas com saída — retrucou a Solidão. — Já ouvimos promessas. Nenhuma porta foi aberta.

        — Porque vocês esperaram portas — disse a Esperança, tranquila. — Eu não trago portas, mas pequenos passos.

        Tristeza ergueu os olhos pela primeira vez.
        — Passos para onde ?

        Esperança sorriu, mas havia firmeza ali.
        — Se vocês mudarem o jeito de pisar, certamente sairão da mesmice de ficar.

        Solidão cruzou os braços exclamando:
        — Isso é crueldade! Parece que a culpa é nossa!

        — Não é culpa — respondeu a Esperança, já um pouco impaciente — É possibilidade. Vocês ficam tanto tempo olhando para o chão que se esquecem que qualquer movimento já leva a outro caminho.

        Tristeza hesitou.
        — E se for só mais um engano?

        A Esperança inclinou a cabeça, pensativa.
        — Então será um engano em movimento. Um erro, enquanto caminha, ensina muito. Certeza parada não muda nada.

        O silêncio caiu entre elas, pesado, mas diferente.

        Solidão descruzou os braços olhando pra Esperança.
        — E você… fica?

        — Fico enquanto vocês derem um passo — disse a Esperança. — Depois, sigo dentro de vocês. Sou direção, percebem?

        Tristeza respirou fundo, aspirando o ar pela primeira vez em muito tempo e falou:
        — Um passo… só um?

        — Só um já desmonta o que parecia eterno.

        As duas se entreolharam. E, sem perceberem direito como aconteceu, moveram-se. Pequeno, um passinho tímido, mas já não estavam exatamente no mesmo lugar.

        Tristeza não desapareceu de imediato, ela apenas adormeceu… no colo de alguém.

        Solidão não se foi, é claro, mas deu espaço a algo novo.

        A cidade ainda dormia, porém agora, em algumas janelas, começavam a surgir pequenas frestas de luz.

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2 respostas

  1. Uau! Bela crônica reflexiva! Uma parábola! Parabéns , querida! Palavras que edificam.

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