O estômago ainda parecia ter ficado preso nas nuvens. Depois que o avião arremeteu por duas vezes sob um céu hostil, a sensação de terra firme no Uber parecia um milagre distante. Quando finalmente passei pelas portas do Hotel Salvador Mar, meu corpo inteiro clamava por um único travesseiro. Eu estava exausto. Uma viagem longa, troca de aeronaves, o pânico do pouso forçado… tudo pesava como chumbo nos meus olhos.
Entrei no quarto 708 com o automatismo de um sonâmbulo. Mas o silêncio durou poucos segundos.
Um estalo seco, como madeira velha estalando sob pressão, ecoou pela parede. Era na porta de comunicação interna, aquela maldita lâmina de madeira que conectava o meu quarto ao vizinho. Instintivamente, levantei e fui verificar. A folha do meu lado cedeu ao meu toque, revelando a segunda porta. Trancada pelo lado de lá. Fiquei cismado. Uma lufada de ar inexplicavelmente gelada escapou pela fresta inferior, trazendo um cheiro sutil de cera de vela queimada e mofo antigo. “É o cansaço”, menti para mim mesmo, tentando aplacar o arrepio violento que desceu pela minha nuca.
Deitei-me do jeito que estava, com as roupas do corpo. O sono vinha em ondas pesadas, mas, bem na fronteira onde a mente desliga, o ar do quarto congelou. Uma voz suave, mas carregada de uma tensão sobrenatural, atravessou a madeira:
— Léo…
Fiquei imóvel. O coração deu uma batida em falso. Isso é imaginação, pensei, forçando as pálpebras a fecharem até doer. Apenas a exaustão brincando com a minha sanidade.
Mas a voz voltou. Mais nítida. Mais próxima. Não vinha mais da parede; parecia ecoar dentro do meu próprio crânio, dominante e gélida:
— Léo…
O suor frio brotou na minha testa, mas meus músculos não respondiam. Uma paralisia do sono simulada pelo pavor. Para tentar recuperar o controle, levantei a muito custo e deixei apenas a lâmpada do banheiro acesa. A penumbra amarelada que invadiu o quarto era sinistra, mas era o máximo de paz que eu conseguiria. Eu precisava dormir; dali a algumas horas teria que ir à Bienal de Salvador, no Centro de Convenções, para o lançamento dos livros dos meus colegas do Projeto Danado de Bom e da Palavra Encantada.
Eu precisava estar bem. Mas o hotel pertencia a outra época.
Ainda submerso naquele torpor cinzento, ouvi o som que fez meu sangue congelar nas veias: o clique metálico e violento de uma fechadura girando. A porta do quarto ao lado.
Paralisei completamente. Meus olhos se fixaram na penumbra. A porta de comunicação começou a se abrir, milímetro por milímetro, rangendo como se não fosse aberta há séculos. Da escuridão do quarto vizinho, emergiu uma silhueta.
Ela caminhava com uma lentidão hipnótica, arrastando os pés descalços pelo chão. Parou exatamente aos pés da minha cama. O horror me emudeceu. Vestia uma túnica totalmente roxa, um tecido pesado e arcaico que parecia sugar a pouca luz do ambiente. Em uma das mãos, sustentava um crucifixo de madeira escura com um Cristo retorcido; na outra, as contas de um terço de osso batiam umas nas outras com um som seco.
Não havia olhos sob o capuz, apenas duas cavidades profundas cobertas de sombra. Ela exalava o cheiro do sagrado misturado ao profano: incenso de igreja e terra úmida de cemitério. Era a própria lenda. A Mulher de Roxo.
Ela estendeu a mão esquelética em minha direção. A voz ríspida, que parecia arranhar as paredes do quarto, exigiu:
— Me dê… o dinheiro… em papel…
Num misto de pavor e submissão cega, tateei meus bolsos com dedos trêmulos, peguei as notas que tinha e as estendi. No instante em que os dedos dela — frios como o gelo — roçaram a minha mão para pegar o dinheiro, um calafrio elétrico subiu pelo meu braço. Ela murmurou uma prece inaudível, deu meia-volta e sumiu de volta para o limbo do quarto ao lado. A porta bateu com um estrondo que ecoou pelo andar inteiro.
O transe se quebrou. Saltei da cama soltando o ar que nem percebi que prendia. Acendi todas as luzes, sufocando a penumbra. Tudo parecia normal. A carteira estava ali… mas faltavam as notas. A porta interna? Perfeitamente trancada por dentro e por fora.
Passei o resto da madrugada acordado, olhando para as paredes. Pela manhã, rumei para o Centro de Convenções. O sucesso dos lançamentos dos colegas da Palavra Encantada operou um milagre temporário, me distraindo do pesadelo. Mas Salvador é uma cidade de portais. E o hotel fazia questão de me lembrar disso.
Todas as vezes que eu voltava, o pesadelo se repetia no maquinário. Quando o elevador chegava ao sétimo andar, ele parava. As portas se abriam para o corredor escuro e ali ficavam, travadas, como se algo estivesse segurando o sensor do lado de fora. A luz de presença demorava uma eternidade agonizante para acender, e naquele breve segundo de escuridão total, eu ouvia o sussurrar de contas de um terço batendo no escuro.
Mais tarde, um funcionário antigo do hotel confessou, pálido, que aquele “defeito” no dispositivo só acontecia ali. No meu andar. O andar que outrora fizera parte do antigo casario onde ela costumava vagar.
Nas noites seguintes, os vultos roxos ganharam os corredores. Sempre que eu caminhava até a saída, sombras com formas de mantos cortavam a periferia da minha visão, sumindo atrás das pilastras.
O Salvador Mar continua lá, fingindo normalidade para os turistas. Mas eu sei que, no sétimo andar, o passado de Salvador não está morto. Ele está faminto, de pés descalços, esperando a próxima esmola.
2 respostas
Parabéns, Léo Bargom, essas coisas só acontecem com vc. Bem q notei q vc chegava na Bienal meio surtado, kkkkkkk. E depois custava pra retornar ao hotel . Se avexe não, a dama de roxo so queria sua grana.
É uma lenda bem interessante de Salvador, então como tinha aquele mistério lá no sétimo andar, da porta e do elevador, achei que a mistura ia ficar boa kkkk