Transformando histórias nordestinas em patrimônios de leitura

Liga o foda-se, crônica da Renilda Viana

Era uma segunda-feira. Um dia de plena atividade. A cidade pulsa! Respira, ofegante, tamanho é o seu frenesi. As pessoas, nas ruas, nas calçadas, nas faixas de pedestres, não caminham, correm. Cada um tentando chegar ao seu compromisso a tempo de bater o cartão. Eu seguia para visitar um imóvel que passei a alugar após escolher o litoral como residência fixa. Me via numa situação confortável, tendo em vista que me encontro aposentada, após trinta anos dedicados à educação. Dirigi-me até o metrô, condução que, confortavelmente, me deixaria na porta do imóvel.
Acompanhei o mar de gente indo na mesma direção. Segue o fluxo, é o que recomendam. Não sobrou lugar vazio para sentar-me. Seguirei a viagem de pé. Um casal de meninas, muito simpáticas, me ofereceu o assento. Dispensei. Não quis incomodar, uma vez que observei que estavam tão bem acomodadas, com as mãos entrelaçadas; o amor estava no ar. No banco da frente está um senhor, aparentemente na casa dos oitenta anos. Uma figura! Me lembrou muito aqueles cantores de blues americano. Usava uma jaqueta de couro preta, uma boina marrom, fones de ouvido, um relógio de pulso daqueles de circunferência gigante e cheia de pontos brilhantes. Mas a cereja do bolo era o par de sapatos que usava. Calçava uns sapatos pretos, bico fino, com fitas de metal cor de ouro nas laterais. Um luxo. De repente entra um rapaz com saco preto, se posicionou ao meio do vagão, entre os passageiros, pôs-se a cortar repolho, exalando o seu odor que era misturado ao cheiro de banho fresco de quem seguia para o trabalho, mostrava a eficácia do seu produto, um cortador de repolho. Corri os olhos em todo o vagão e observei que 99% dos passageiros mexiam no celular. Uma moça respondia pelo 1% restante. Alheia a tudo à sua volta, lia um livro intitulado “A sutil arte de ligar o foda-se”.
Falei com meus botões: “é, cada um, a seu modo, ligou o foda-se já há um bom tempo. Apenas segue o fluxo.”
Eu estou entre os 99%, enquanto escrevo esse texto.

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Uma resposta

  1. Ja tinha lido seu texto no livro. Muito bom. Exatamente assim que as pessoas ficam no metrô, alheias, só q aqui no Rio a venda de qq coisa é proibida. Raramente alguém tenta. No trem da Supervia é q é um verdadeiro shopping. Eu faço parte do 1% q não pega no celular. Prefiro observar as pessoas.

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