Transformando histórias nordestinas em patrimônios de leitura

O Solo, o Sangue e a Bolandeira: A Sociologia Poética de Corsino de Brito, por Josessandro Andrade

Josessandro Andrade

O poema “Bolandeira velha (Ou História sertaneja do Brasil)”, de autoria do intelectual sertanense Corsino de Brito (conhecido como “O Bardo do Piutá”), transcende a mera catalogação de memórias regionais. Advogado, professor e ativista — cofundador da Frente Negra em Pernambuco ao lado de Solano Trindade —, Brito utiliza a herança lírica e histórica de sua terra natal, Sertânia-PE, como um microcosmo para decifrar a formação da identidade nacional. O poema transforma uma ruína de engenho em um monumento sociológico, onde a micro-história do Sertão do Moxotó reflete as macroestruturas do Brasil Colonial e Imperial.

Corsino de Brito- O Bardo do Piutá

Corsino de Brito é de Sertânia-PE, poeta, contista, escritor, advogado, professor, ensaista, foi juntamente com Carlos Drumondd de Andrade e outros poetas,Frequentador da UNICABAL- Universidade do Calçadão de Copacabana, Rio de Janeiro-RJ, onde foi servidor do Tribunal de Contas do Estado. Em Pernambuco foi fundador da Frente Negra, com Solano Trindade. No Rio de Janeiro- RJ fez parte do Grupo da UNE- União Nacional dos Estudantes, que lançou o movimento “o Nosso Petróleo é nosso”, que abraçada por vastos segmentos sociais e políticos do País mais tarde se tornou a famosa campanha “O Petróleo é nosso!”.

Bolandeira velha

(Ou História sertaneja do Brasil)

Bolandeira velha de Pai Guilherme,
Velha Bolandeira das terras de Cachoeira,
No Sertão brabo de meu Pernambuco crestado.
Sertão varado de veredas encruzilhadas
Por onde as bandeiras de antanho,
Bandeiras do passado,
Verrumavam os horizontes
P ‘ras bandas do Rio São Francisco…

Ah! Bolandeira antiga
Esburacada, derreada,
Por onde dizem, ouvem –se
os passos de Pai Guilherme ás Madrugadas!

Bolandeira antiga
Joia do feudo da cachoeira-
Senhora de seiscentas cabeças de gado crioulo
E terras que se destendem do jabitacá a Barro Branco.
Há soletro a História,
Vejo nessa bolandeira um resumo do Brasil -Colonial
Uma síntese do Brasil- Império:-
O couro valendo ouro e a garapa ouro feito.

Bolandeira velha de Pai Guilherme
Barroco esfumado de um Brasil longevo,
caricatura rústica
do país hodierno que me viu nascer
e por onde hesito, e capengueio e erro
e sofro e brinco e vivo….

Tacho de caldeamento humano
Cujo mel ainda não deu ponto.
Búzio em chifre de boi,
Cuja modulação sonora é o gemido do negro,
O brado guerreiro do Pajé fogoso indomável
E a reclama do zíngaro, do batavo e do luso
Ofertando cachimbos,espelhos, braceletas!…

Bolandeira velha de Pai Guilherme,
rancho de pouso e pasto vasto
para almocreves e muares estropiados
na tração incessante dos produtos sertanejos:
semente de mamona, caroço de algodão,
casca de angico e alimária p`ros engenhos-
em troca de manufaturas e produtos de orla…
Pai Guilherme, Senhor feudal daquelas zonas,
Suas filhas, as sinhazinhas
Que montam em silhão enfeitado
E mandavam surrar os cabras enxeridos…
Pai Guilherme ordenava aos vaqueiros ferrarem
Toda rês recém- nascida encontrada na caatinga,
quer fosse quer não fosse de sua propriedade.
Pai Guilherme a mais fornida pilastra da fé Cristã.
Na seara moxotolina.
Pai Guilherme que mandava matar todo vaqueiro
Que delatasse, ou não cumprisse, aquele crime.
Mas, Pai Guilherme,
Coiteiro de escravos foragidos na caatinga…

A história do Brasil, porém vem se mudando
O bisneto de Pai Guilherme é pobre como Job,
Mas perscruta, n essa bolandeira antiga,
O milagre político da unidade física…

Bolandeira antiga,
Velha bolandeira das terras de Cachoeira,
Domínio de Nassau em alguma época,
Pelourinho e bota de opressão,
Espantalho de negros e mestiços,
Mas passadiço de descortino de Braisis,
Conglomerado de amarguras e epicismos,
Alfarrábio vivo da sociologia nacional

Sinto como que ,
Transpirando das paredes esburacadas,
Vultos e paisagens passados, passeando pelo ar.
Dá-me uma sensação gostosa
De passadismo e supertição,
De saudade e esquecimento
Essa bolandeira derreada,
E a figura de Pai Guilherme
Infunde-me respeito e orgulho,
E medo e intimidade lendária…

Não sei por que,
Á s vezes sou profundamente essa bolandeira:
Sinto-me enigmático, convulsionado, misterioso,
Por instante esburacado,
Destelhado, derreado e aniquilado, também.
Crivado de uma porção de histórias interiores,
Assoma-me a sensação de que já fui muitas criaturas,
E , não raro, pânico, até, de que ainda o sou.
Emaranhado, turvo, suspenso, pardo, misturado,
Esfumado, absorto, indefinível,
Mas tudo isso com uma realidade tenebrosa
De vultos se mexendo no escuro…
Possivelmente eu seja mesmo essa bolandeira!…
E como se não bastasse tão angustiosa parecença,
Pela bolandeira antiga, alecremente,
ao sol das tardes e das manhãs,
há graúnas e corvos , e sabiás,
canários amarelinhos construindo ninhos
pelos beirais da bolandeira antiga,
e ao pé das paredes centenárias
bale, ou descansa,
a carneirada mansa!…

     (Corsino de Brito, do Livro " Réstias de minha latada" ). 

Guilherme de Carvalho. No Sítio Cachoeira, possuía um chiqueiro com algumas cabras. Depois colocou uma bodega num quarto contiguo à casa. Posteriormente construiu um açude de pedra, montou uma engenhoca de madeira e instalou uma bolandeira de algodão. Em 1899, deu início a uma feira , que mais tarde originou o povoado Cachoeira de Guilherme (atual Distrito de Albuquerque- Né). Dirigindo –se a Vitória de Santo Antão para socorrer uma pessoa de sua comunidade, lá serviu de enfermeiro e acabou contraindo varíola. Faleceu longe dos seus , em terra estranha, virando um verdadeiro mito para aquela região de Sertânia. São seus descendentes Os Carvalhos : Carvalho de Sindor e Damião, Doura de Veríssimo, Paulo Mariano, Anacleto Guilherme de Carvalho… Esta Bolandeira de que trata o poema, serviu para dar nome a “Serra da bolandeira”.

A Bolandeira aí é uma metáfora da formação nacional. A estrutura central do poema reside na equiparação de um maquinismo agrícola antigo — a bolandeira de algodão e tração animal — à própria engrenagem da história brasileira.
O “Tacho de Caldeamento”: O autor define a bolandeira como um “tacho de caldeamento humano / cujo mel ainda não deu ponto”. Trata-se de uma leitura direta das teorias de miscigenação e formação do povo brasileiro, evocando a fusão dolorosa e inacabada entre o indígena (“pajé fogoso”), o negro (“gemido do negro”) e os colonizadores (“luso”, “batavo” e “zíngaro”).
Numa síntese de eras, o poema cruza temporalidades ao apontar que a dinâmica econômica local sintetiza o ciclo do Brasil-Colônia e Império: “O couro valendo ouro e a garapa ouro feito”. O comércio de subsistência e a exploração de matérias-primas (mamona, algodão, casca de angico) mimetizam a subordinação econômica do interior em relação aos produtos manufaturados da orla litorânea.

A Dualidade Dialética de Pai Guilherme nos revela a figura histórica de Guilherme de Carvalho (fundador de Cachoeira de Gulherme, atual distrito de Albuquerque Né, em Sertânia), é retratada com uma complexidade crua e realista, longe da hagiografia idealizada. Corsino de Brito constrói o personagem por meio de contradições estruturais que definiam os senhores feudais do semiárido: O Tirano e o Protetor, ou seja Pai Guilherme é simultaneamente o patriarca violento que “mandava matar todo vaqueiro / que delatasse” seus crimes de apropriação de gado alheio, e o “coiteiro de escravos foragidos na caatinga”. Era a Pilastra da Fé e a Opressão, pois ao mesmo tempo em que representa a “mais fornida pilastra da fé Cristã na Moxotolina”, sua bolandeira funcionava como “pelourinho e bota de opressão”. Essa ambiguidade reflete o coronelismo e o clientelismo brasileiros, onde a brutalidade jurídica caminhava lado a lado com a proteção paternalista.
A Ruína do Tempo vai chegando com a decadência socioeconômica, típica das velhas oligarquias é expressa no contraste geracional: “O bisneto de Pai Guilherme é pobre como Job”. No entanto, a herança simbólica permanece viva na geografia local, batizando a “Serra da Bolandeira”.
O Espaço geográfico e a mística regional a gente percebe em interpretação . O poema localiza geograficamente o leitor na mística das terras de Cachoeira, Jabitacá e Barro Branco, banhadas pela bacia do Rio São Francisco e do Rio Moxotó. A caatinga deixa de ser apenas um cenário seco (“Pernambuco crestado”) para se tornar um arquivo vivo de fantasmas e memórias

Uma mistura de assombração e saudade . É desta forma que podemos vislumbrar o fato de a madrugada trazer os passos de Pai Guilherme. O autor experimenta uma “sensação gostosa de passadismo e superstição”, onde o medo e a intimidade lendária se misturam.

A Natureza Regeneradora está nos versos finais, a angústia da ruína histórica é abrandada pela resiliência da fauna local. Graúnas, sabiás e canários constroem ninhos nos beirais destruídos, enquanto a “carneirada mansa” descansa sob as paredes centenárias, simbolizando a continuidade da vida sertaneja apesar das opressões do passado.
Identificação Psicológica do Eu-Poético .

Na seção mais intimista da obra, Corsino de Brito opera uma fusão psicológica entre a sua própria mente e a estrutura física da bolandeira:”Não sei por que, / Á s vezes sou profundamente essa bolandeira: / Sinto-me enigmático, convulsionado, misterioso…”O poeta se reconhece “esburacado, destelhado, derreado”, carregando em si uma “porção de histórias interiores”. Essa crise existencial traduz o fardo do intelectual que compreende o peso da história de seu povo. Ele se vê como um produto direto desse emaranhado cultural — turvo, pardo e indefinível —, assumindo a bolandeira não apenas como um objeto externo, mas como sua própria pele e biografia.

Podemos concluir que o poema de Corsino de Brito é uma peça de valor inestimável para a literatura pernambucana e para a historiografia de Sertânia. Ao resgatar a biografia mítica de Guilherme de Carvalho e a decadência material de sua bolandeira, o “Bardo do Piutá” não canta apenas a saudade do passado. Ele faz uma autópsia lírica do Brasil moderno, mostrando que o país contemporâneo ainda capengueia e hesita sobre os mesmos alicerces barrocos, agrários e violentos assentados nos séculos anteriores no coração da caatinga.

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Uma resposta

  1. Caramba! Isso foi uma verdadeira aula. Vou reler. Maneira espetacular de falar do Brasil de outrora cujas características opressoras ainda se perpetuam. Mas a resiliência é tudo e aqui estamos.

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