Alayde sempre teve mãos carinhosas: três meninas pequenas que demandavam dela o colo, o fôlego, a paciência e aquele tipo de amor que se renova no silêncio. Suas duas irmãs solteiras a ajudavam muito com as crianças na hora do aperto.
Cada filha viera ao mundo com um risco escondido: A primogênita Angela nasceu após 13 anos de casamento e a perda de 6 bebês. Ninguém sabia por que. A segunda filha, Marilda, nasceu 2 anos depois e veio com saúde, mas a cada gravidez, o medo de perder crescia como sombra.
Alayde era RH negativo, o marido, RH positivo, mas só souberam disso com o nascimento da terceira menina que quase não resistiu. Eliane nasceu com uma icterícia hemolítica tão grave que os médicos chegaram a preparar a família para o pior. Foram dias e noites no hospital; aquele corpinho frágil de 2.800g, tubos e agulhas. Já nos primeiros dias perdeu 300g. A pequena só sobreviveu porque recebeu duas transfusões de sangue, cada uma delas uma esperança de vida.
Para Alayde, aqueles instantes foram uma mistura de fé e desespero e a certeza de que não poderia mais arriscar outra gestação. Seu corpo não suportaria. Tampouco os bebês. Alayde em silêncio, apenas rezava.
Mesmo assim, a quarta gravidez chegou, como quem bate à porta sem aviso. A esperança de um novo filho misturou-se ao desespero. O médico foi direto: —“A sua vida está em risco. E também a da criança. Se um viver, o outro morre”.
O marido, militar, estava sempre em trânsito, carregando a família entre cidades. Como ficaria se ela partisse, deixando um viúvo com quatro crianças tão pequenas?
As opiniões vieram de todos os lados. A amiga dizia: — “Pense nas meninas”. As irmãs reforçavam: —“Você não pode deixá-las sem mãe”.
Alayde foi conversar com o padre, pois não pensaria em tirar a vida que lhe crescia no ventre, mesmo ainda um embrião. Até o padre, com doçura, aconselhou:
— Filha, Deus lhe confiou três joias. Sua missão é cuidar delas e desse homem que caminha ao seu lado.
Naquela noite, o casal se abraçou longamente. Ele, tirando a farda e a colocando dobrada sobre a cadeira, revelou um sonho secreto: queria formar a palavra AMOR com as iniciais dos quatro filhos que sempre imaginara ter. Alayde chorava, apertando as mãos dele. Não havia palavra que pudesse compensar o vazio daquela escolha.
Mas então, com voz trêmula, ele completou:— Se não pode ser AMOR… que seja AME. — Ame o que já temos. Ame o que já vivemos. Ame o que ainda vamos ser.
E assim foi. Alayde decidiu permanecer. Não foi uma escolha sem dor, mas foi uma escolha de vida. Viveu inteira para aquelas três meninas, espalhando ternura no cotidiano: na vivência com a escola, nas músicas malucas e inventadas cantadas à noite; nas risadas que ecoavam pela casa, na amizade com elas.
O marido seguiu ao lado, firme, descobrindo que o verdadeiro amor não está no número de filhos, mas no verbo que se conjuga dia após dia.
No fim, AME não foi só uma palavra. Tornou-se destino. Tornou-se verbo. E, em cada gesto, Alayde provou que amar é, acima de tudo, escolher.
Respostas de 6
Uma bela história, às vezes, no caminho, temos que deixar algo, tão precioso, mas seguir o caminho é fundamental, quando temos outras preciosidades para cuidar. Parabéns Eliane Seixas…
Obrigada. É minha história
Muito lindo! É a vida, estamos sempre tendo que fazer escolhas. Difíceis mas necessárias. Me emocionou! ❤️❤️❤️
Obrigada, amiga
Belo texto! A vida e suas escolhas!
É a minha história. Grata pelo comentário