Transformando histórias nordestinas em patrimônios de leitura

O Louco do ônibus, crônica da Renilda Viana

Voltava eu de uma consulta médica, a bordo de um ônibus coletivo, desses que param a cada dois ou três quarteirões para embarque ou desembarque, ou os dois. Em uma dessas paradas, entrou um rapaz, aparentemente jovem. Cambaleava um pouco; pensei: “Ou bebeu demais ou não está se sentindo bem”.

O rapaz se dirigiu para o assento vazio ao meu lado, na janela do coletivo. Tenho essa mania: nunca sento na janela de um coletivo; isso me causa uma certa paúra. A impressão que me vem é que alguém vai sentar ao meu lado e aproveitar para me roubar, assediar ou qualquer coisa que me deixaria sem ação por estar presa num banco de ônibus; então, sempre deixo o banco da janela vazio.

O rapaz pediu licença para eu afastar as pernas e sentou-se ao meu lado. Antes de se sentar, usou uma flanela que carregava nas mãos e passou-a no assento, limpando toda a extensão que lhe pertencia naquele momento. Enquanto continuava lustrando todo o resto do seu assento, fez uma série de perguntas:

— A senhora sempre pega esse ônibus? A senhora mora aqui ou está de passeio? A senhora está vindo de onde? A senhora…
— Está bem, já vi que o senhor quer conversar. Eu só pego esse ônibus quando vou ao hospital que fica nessas imediações.

Ele agora esfregava a flanela no vidro da janela. Dava uma baforada para o vapor saído da boca auxiliar na limpeza. Observava aquela ação como algo inusitado.

— Eu gosto muito de pegar ônibus — continuou. — São espaçosos, a gente conhece pessoas novas, eu sempre limpo meu espaço. Agradeço por encontrar um banco vazio ao lado de gente do bem.
— Ah, então o senhor me avalia como gente do bem? Como chegou a essa conclusão?
— Só de olhar como a senhora virou as pernas para eu passar para o lado da janela. Foi educada, se virou com delicadeza… Quer limpar seu banco? Eu sempre limpo o meu, a gente nunca sabe quem nos antecedeu.

Nesse momento, me virei para o lado e disfarcei um sorriso: “É cada maluco!” — pensei.

— Eu também estou voltando do hospital. Recebi alta hoje. Fiz uma cirurgia. Ainda estou meio zonzo depois de tantos furos de agulhas.

Entendi por que entrou cambaleando; não era efeito de bebida. Quando percebi, já estava de papo com o sujeito estranho com TOC de limpeza.

— O senhor não tinha ninguém para vir buscá-lo no hospital? Afinal, saiu de uma cirurgia.
— Que nada, dona. Minha família não mora aqui. Sou sozinho. Sempre me virei só.

A limpeza de toda parte metálica próxima de suas mãos continuava sendo feita enquanto falava.

— Veja! Quando entrei estava tudo embaçado, agora está até brilhando. Se todos cuidassem do seu banco, não precisariam nem de carro — e continuava limpando. — Quer limpar o seu?
— Não, muito obrigada.
— Gosto de pegar metrô. Esse me dá menos trabalho de limpeza. Só passo o paninho e já está bom. No metrô as pessoas são mais educadas. A senhora gosta de andar de metrô? É um luxo, né?
— Às vezes.
— A senhora não gosta muito de conversar, percebi. Ah, já eu… adoro uma conversa. Pena que só encontro gente pra conversar assim, no ônibus, no metrô… Quando estou na rua e me aproximo de um grupo de pessoas para conversar, enquanto limpo a calçada para sentar, todos já desapareceram; ninguém tem paciência de esperar.

Nesse momento, passei a imaginar ele lustrando a cerâmica das calçadas.

— Vou descer no próximo! Gostei muito de conhecer a senhora. Nos veremos por aí.

O moço desceu e eu fiquei pensando: será mesmo que fez uma cirurgia? Poderia ter oferecido ajuda? Bom, não era de todo louco. Falou coisas importantes para o convívio social. Somos todos loucos.

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Respostas de 2

  1. Certamente ele tem um parafuso a menos e um TOC bem embaraçoso. Eu costumo atrair maluco kkkk sei como é dificil lidar. Sua crônica mostra bem a diversidade das pessoas q encontramos diariamente. Mas às X eu me faço de doida pra me livrar de gente inconveniente. Um dia eu conto.

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