O texto “Louvação para mãe cabra do Moxotó e outras cabras”, de Marcos Cordeiro (dedicado a José de Sousa Leal), é um manifesto poético, científico e socioeconômico. A obra exalta o papel da cabra na sobrevivência do homem no semiárido nordestino.
: Louvação para mãe cabra do Moxotó e outras cabras.
- Para José de Sousa Leal-
Louvo, louvei e vou louvar
Minha mãe-cabra do Moxotó;
Louvo aquela em que Zeus mamou;
Louvo aquela que dos seus chifres se fez a cornucópia – símbolo da abundância;
Louvo a irmã do sol – a 5ª mais brilhante estrela do céu.
Louvo aquela cujo macho simboliza a virilidade na natureza;
Louvo aquela cujo filho consagraram a Dionísio.
Venerado no Egito, serviu de montaria a Afrodite.
Louvo a mais antiga espécie doméstica depois do cão.
Louvo o primeiro animal leiteiro depois da mulher.
Mãe de leite do sertão é a companheira fiel do sertanejo.
Mais que a vaca é a mãe anônima dos nordestinados da sorte.
É a cabra de corda da zona da mata e do agreste.
São as centenas de mães de chiqueiro… dos sertões do Nordeste brasileiro.
Fixadoras do homem na caatinga, são cúmplices na luta contra o meio adverso.
Ecologicamente adaptada, não a agride a deprimida e áspera terra nordestina.
Com a terra se inter-relaciona e se completa em perfeita harmonia, qual se dela saísse.
Nas brenhas ressequidas e inóspitas,
nas áridas veredas e agressivas vias,
nos serrotes e lajedos da Borborema
tem o seu cetro e coroa.
Entre quixabeiras, aroeiras, baraúnas,
umbuzeiros, juremas, mandacarus,
facheiros, alastrados, moleque-duros,
faveleiros e quipás, entre outros “espinhos”,
circunscreve o seu mundo, a sua geografia.
Vitoriosa, sobrevive onde o boi falece
vítima da inclemente seleção das caatingas.
É a Moxotó de Sertânia em Pernambuco,
Marota na Bahia, Canindé no Ceará e no Piauí.
Admirável mãe,
È membro da família Bovidae, Subfamília Caprinae.
É a Capra hircus de cuja ascendência três espécies contribuíram para a sua gênese:
a Capra aegragus ou Cabra bensoar dos planaltos ocidentais da Ásia,
a Capra falconeri, também da Ásia mais oriental e indiana,
e a Capra prisca de Adamentz, já extinta e que parece ser o tronco mais antigo e primitivo.
É ela a rústica ama seca dos pobres, subsistência das populações rurais do Nordeste.
A primeira e natural Bolsa-família dos pobres do Nordeste Brasileiro.
• ouvo aquela que, ao contrário do bovino – que só é levado ao mercado na idade de 3 a 4 anos no melhor dos casos – requer apenas 5 a 6 meses em condições idênticas;
Louvo a sua melhor produtividade entre todas as espécies ruminantes domésticas;
Louvo a sua participação para a produção de peles e produtos derivados;
Louvo aquela que requer em média como área mínima para a manutenção de um animal/ano, 4 hectares contra 5 há para o ovino e 6 a 10 ha para o bovino na região do Polígono da Seca;
Louvo aquela cuja carne apresenta a menor taxa de gorduras e calorias, conseqüentemente, de colesterol, como também a mais alta de proteínas, (esta última igual a bovina) comparada com a de suínos, ovinos e aves;
Louvo aquela cujo leite apresenta o teor de proteínas e gordura superior ao da vaca; Louvo aquela cujas vísceras nos dão a celestial “buchada”, iguaria digna dos deuses,
o mais suave queijo de coalho,
o mais delicioso dos assados e o mais suculento dos guisados;
Louvo aquela que dá coragem ao nordestino para ser “antes de tudo um forte”;
Louvo as cabras madrinhas, amantes favoritas das primeiras “desinocências”
dos meninos do sertão;
Louvo ainda a minha primeira cabra que era “pé dura”, presente de Da. Nina Dodô quando eu tinha 10 anos de idade;
Finalmente louvo aquela a quem peço a benção
e que poderá tornar-se uma grande parceira do homem do sertão nordestino
para a sua fixação e sobrevivência no semi-árido do Nordeste.
(Marcos Cordeiro)
Abaixo, apresentamos uma análise detalhada do conteúdo, dividida em seus principais eixos temáticos.
Iniciamos a abordagem pelas áreas da mitologia e História : Compreendendo a Cabra no processo da trajetória humana . O autor inicia o poema conectando o animal à história universal e à mitologia grega clássica:.b Cita a cabra Amalteia, que amamentou Zeus e cujo chifre quebrado deu origem à cornucópia, o símbolo da abundância. No terreno da astronomia refere-se à Capela (a quinta estrela mais brilhante do céu), historicamente associada à figura de uma cabra. Prosseguindo enfatiza a domesticação , onde destaca o valor histórico do animal. A cabra é lembrada como a segunda espécie domesticada pelo homem (após o cão) e o primeiro animal leiteiro da humanidade.
O texto faz referência a ecologia e a adaptação a Caatinga, descrevendo com precisão a simbiose entre a cabra e o bioma da Caatinga. O autor contrasta a cabra com o boi, destacando que ela “sobrevive onde o boi falece”. O bovino sucumbe à seca extrema, enquanto a cabra prospera. O poeta salienta a harmonia com o meio ambiente, Diferente de espécies que degradam o solo, a cabra se integra à “deprimida e áspera terra nordestina” sem agredi-la.
Geografia dos Espinhos
O poema lista plantas nativas (como quixabeiras, mandacarus, facheiros e juremas) para delimitar o cenário hostil onde a cabra estabelece o seu “cetro e coroa”.
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Marcos Cordeiro enriquece o poema com dados da zootecnia e da biologia: Identifica o animal na família Bovidae e subfamília Caprinae, Apresenta a árvore filogenética da Capra hircus, citando os ancestrais Capra aegagrus, Capra falconeri e a extinta Capra prisca.
Também mapeia a distribuição das raças nativas do Nordeste, citando a Moxotó (Pernambuco), Marota (Bahia) e Canindé (Ceará e Piauí).
O Impacto Socioeconômico é realçado na comparação A “Bolsa-Família” do Sertão . Ai ,O ponto alto do texto é a crítica social e a valorização econômica do animal para as populações vulneráveis: Inferimos aí a questão da Segurança Alimentar. A cabra é definida como a “ama seca dos pobres” e a “primeira e natural Bolsa-família dos pobres”. Ela garante a subsistência mínima sem depender do Estado.
O texto traz dados zootécnicos comparativos que acentuam a eficiência produtiva. A cabra exige menos área por animal/ano (4 hectares no Polígono das Secas) do que o ovino (5 ha) e o bovino (6 a 10 ha). Além disso, tem ciclo de mercado curto (5 a 6 meses para venda, contra 3 a 4 anos do boi).Fixação do Homem no Campo: O animal é colocado como a ferramenta que impede o êxodo rural, permitindo que o sertanejo permaneça em sua terra.
Cultura, Gastronomia e Afetividade
O poema encerra com uma forte carga de identidade cultural e memórias pessoais. Ao mesmo tempo registra a peculiarodade da gastronomia nordestina, Celebrando os subprodutos da cabra, como a buchada, o queijo de coalho, os assados e os guisados. Destaca ainda a superioridade do leite caprino e as qualidades de sua carne (alta proteína, baixo colesterol e menos gordura).
Finalizando, Marcos nos revela os ritos de passagem e memória afetiva . Ele menciona com humor e realismo as “primeiras desinocências dos meninos do sertão” e resgata sua própria infância ao lembrar de sua primeira cabra “pé dura”, presenteada por Dona Nina Dodô. Podemos então concluir que este texto de Marcos Cordeiro não é apenas uma homenagem poética. É um documento de defesa do desenvolvimento sustentável do semiárido. Ao classificar a cabra como a companheira fiel, que dá coragem ao nordestino para ser “antes de tudo um forte” (citando indiretamente Euclides da Cunha), o autor transforma o animal em um símbolo de resistência, soberania alimentar e orgulho identitário do Nordeste brasileiro.
Josessandro Andrade é Artista da Palavra