Transformando histórias nordestinas em patrimônios de leitura

Valsa Doce: a dança silenciosa de quem vive com diabetes

            Acordei sobressaltada. Os olhos abriram-se de imediato, como se o corpo inteiro tivesse disparado um alarme invisível. Madrugada ainda. O silêncio pesava. Mas eu reconhecia aquele sinal; um leve tremor nos dedos, a testa úmida, dorso da mão úmido, e o coração apressado sem motivo aparente.

            — Os anjinhos me acordaram outra vez — pensei. Eu já sabia identificar o chamado sutil do meu corpo – Hipoglicemia.

            Sem desespero, estiquei o braço até a mesinha de cabeceira, onde deixava sempre um potinho de açúcar e o medidor de glicose, prontos para emergências. Coloquei um pouco na boca, deixando os grãos se dissolverem lentamente na língua. Fechei os olhos por um segundo, respirando fundo, até conseguir melhorar. Sentei na cama e medi: 63.

            — Perigoso. Desce muito rápido daí — falei pra mim mesma. Precisava de mais. Açúcar puro era um socorro imediato, não o suficiente para manter os níveis estáveis por muito tempo.

            Acendi o abajur de tênue luz azul, caminhei pela casa com passos cuidadosos. A tontura leve ainda persistia, mas não sentia medo. Conhecia o processo.

            Na cozinha, acendi a luz. Peguei o pão, passei requeijão e dei uma mordida enquanto preparava um café. Coloquei tudo na mesa, mas esbarrei na alça da caneca e o líquido quente se espalhou por tudo.

            — Que merda! — exclamei baixinho, enquanto via meu café molhar a toalha, escorrer pela mesa, cadeira e parar no chão.  Um caos silencioso numa madrugada de glicose baixa.

            — Mas tenho que comer. Limpo depois.

            Fui até a geladeira, peguei a caixa de leite já aberta, um copo, botei um pouco de açúcar e bebi gelado mesmo. Comi o pão devagar, sentindo o corpo voltar. Um calor suave subia pela nuca.

            — Preciso comprar goiabada, nessas horas é mais rápido, pensei.

            O sono, comum depois de um quadro de hipoglicemia, me fez levantar entorpecida. O sofá na sala me chamava para um abraço maternal. Deitei ali, não sem antes olhar pra Alexa e constatar as horas: 3:30h. O sono me tomou por inteiro.

            Acordei novamente envolta na penumbra da sala. Olhei pra Alexa e vi que eram 4h. Havia dormido apenas por meia hora, mas suficiente pro meu corpo ressuscitar. Parecia que nada havia acontecido. Sentia-me ótima.

            Hora de limpar a bagunça. Viver com diabetes é dançar uma valsa silenciosa com o próprio corpo — às vezes ele conduz, às vezes te derruba. Mas eu aprendi a escutá-lo.

            Comecei a recolher os pedaços da madrugada, como quem junta pequenos cacos de si mesma. O pano de prato mal enxugava o café derramado, e eu pensava em como a vida, pode escorrer também assim — quente, rápida, solitária….

            Enquanto a manhã inundava a casa, entendi que esse equilíbrio instável é a minha forma de seguir em frente — imperfeita, porém minha. Porque, no fim, não se trata de controlar cada passo da dança, mas de aprender a dançar, mesmo quando o ritmo muda sem aviso.

Eliane Seixas

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