Transformando histórias nordestinas em patrimônios de leitura

O Resgate da Memória como Alicerce do Futuro-Porque Sertânia Precisa de um Museu Oficial?

Por Josessandro Andrade
(Artista da Palavra)

Sertânia é um território onde a história pulsa em cada esquina, mas que ainda carece de um guardião institucional para o seu vasto patrimônio. Refletir sobre a necessidade de um museu municipal não é apenas um exercício de saudosismo; é uma urgência estratégica e coletiva. Para olharmos adiante, precisamos honrar o rastro deixado por figuras visionárias, como José Ramos de Almeida, o inesquecível Zé do Museu.

Zé do Museu foi um pioneiro solitário. Desde os tempos do seu “Art Foto Cruzeiro” até a construção de um prédio próprio às margens do Açude Velho — erguido com o suor de doações e paixão pessoal —, ele provou que a história de Sertânia tinha valor artístico e documental. O seu “Museu Histórico e Artístico” foi a semente de uma consciência que agora, em 2026, precisamos institucionalizar definitivamente.

A memória sertaniense é vasta e plural, mas grande parte dela ainda repousa em baús esquecidos, álbuns de família e sótãos das residências locais. Por isso, a criação deste museu deve ser acompanhada de uma grande campanha de mobilização: um chamado para que as famílias sertanienses doem ou cedam para digitalização peças antigas, objetos históricos, relíquias, fotografias e documentos. O museu não deve ser um órgão imposto, mas um mosaico construído por todos, onde cada sobrenome e cada história de vida ajudem a compor a face da nossa cidade.

Esse anseio é compartilhado por muitas vozes. Era uma aspiração profunda de Tácio Henrique quando secretário de cultura, e hoje ganha eco em diálogos fundamentais que tenho mantido a artista Adriana Neves, Diretora de Cultura do Município de Sertânia, o arquiteto Fábio Teodulo, o multiartista Flávio Magalhães, o Dr. Antônio Jorge de Siqueira, escritor e professor, os professores João Lúcio, Izidoro Simões e Luiz Pinheiro, bem como o presidente da ACORDES – Associação Cultura de Sertânia , Wilton Augusto.

O momento é agora. Com o novo cenário desenhado pelas barragens da Transposição do Rio Francisco e a chegada do Centro Acadêmico da UFPE , Sertânia se reposiciona no mapa do desenvolvimento. O turismo, impulsionado pelas águas e pelo saber acadêmico, exige equipamentos culturais de excelência. O museu será a peça-chave para entender o papel da nossa cultura nesse novo ciclo.

E o lugar já existe em alma e pedra: o antigo Grupo Escolar Romão Santana, na Rua Velha. Localizado no centro histórico e tendo sido a primeira escola do município, o prédio possui o simbolismo necessário: ali, onde se iniciou a educação de tantas gerações, deve-se agora educar para a preservação da identidade.

Criar o Museu Municipal de Sertânia, com um acervo vivo alimentado pela própria população, é um ato de justiça com o passado de Zé do Museu, Luiz Dodô e meu amigo Raimundo Laet, Mundico, (meu parceiro de fins de tarde, regadas ora a café forte, pra a cachaças imperdíveis e uísques enlevantes ao som de Nelson Gonçalves e outros ). É um compromisso com o futuro. É hora de tirar a nossa história do silêncio das casas e dar a ela a dignidade do patrimônio público.

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