Peço vênia ao cancioneiro
Pra contar com precisão
O que ocorre em Arcoverde
No coração do Sertão
Na Budega da Poesia
A arte faz cantoria
Como a sua oração
Quem não conhece o ambiente
Da Budega da Poesia
Tem os bancos de madeira
Pra assentar a freguesia
Objetos sertanejos
Como fossem azulejos
Da mais humilde harmonia
Tudo de madeira rústica
As mesas e o balcão
Utensílios de vaqueiro
Chapéu de couro e gibão
Coleção de fotos completa
De tudo quanto é Poeta
Bornal, cordel e pilão
Na última quinta do mês
A cena se faz divina
Apaga a luz da cidade
A candeia ilumina
O Mote vem da fundura
da alma da criatura
Na fumaça se fascina.
Quem tem sede de beleza
Pode ali se saciar
Nas cascas da carraspana
O seu espírito inundar
Pelo encanto da terra
E no baixio e na Serra
A sua mente levitar
A fumaça do Candeeiro
Dança com sua chama
O verso e a inspiração
Fazem passo e vão pra cama
E fruto desse amor
A fumaça do Candeeiro
Dança com sua chama
O verso e a inspiração
Fazem passo e vão pra cama
E fruto desse amor
O Poema é um torpor
Que a inquietação proclama
Essa é A Força do Sertão
dos Moxotós Ipanemas
Vem gente de todo canto
Do Vale de Prosa e Poemas
Buíque vem prestigiar
Sertânia não pode faltar
Pesqueira a grande Atenas
Poesia é uma riqueza
Que se deve partilhar
O microfone aberto
Candeeiro a fumaçar
Quem diz que o povo não gosta
Nessa Noite acha a resposta
Tanta gente a apreciar
O intervalo pra sanfona
Com triângulo a tinir
O pandeiro e a zabumba
Fazem o molho florir
Entre um gole e uma risada
A alma fica lavada
Vendo a poesia fluir.
O “Mote” já foi lançado
Pra o poeta criar
As Coisas bem lapidadas
O juízo a trabalhar
As glosas incendiadas
Na fumaça são banhadas
Pra chama lhes batizar.
O lirismo da saudade
A boêmia e a questão
Social da nossa gente
Frutificando no chão
A calçada fica pequena
E a juventude serena
Filma com devoção.
O celular combatido
Vira câmera e ação
Filmando e registrando
De aparelho na mão
Mostra que o jovem gosta
E na Poesia aposta
Inda faz divulgação.
A Noite do Candeeiro
É uma celebração
A Labareda do verso
Põe um fim a escuridão
O Sertão Fértil se agita
Pois a estrofe mais bonita
Luz, que invade o coração.
Túlio Lins, Mané Sertão
Fernando e François
Diosman Avelino e Elvis
Na Peleja do cacoá
Com a sanfona de Inácio
Pablo traz o compasso
E a zabumba dá um chá.
Josessandro testemunha
Tamanho magnetismo
A penumbra que oculta
E inspira romantismo
Bebendo o manancial
Inebriante arraial
No vendaval do lirismo.
Não é coisa de museu
Nem de quem vive isolado
Provando que o Nordeste
inda é bem ritmado
É o jovem e o veterano
Lado a lado, como mano
Num ritual encantado.
Bebendo a carraspana
Com o tempero do lugar
A Noite do Candeeiro
Faz o tempo reinventar
Quem não foi, vá conhecer
Pois só lá se vê nascer
Luz que faz cego enxergar.