A descoberta do mundo pelas palavras
Tudo começou nos bancos escolares, com um encarte de interpretação e a magia da coleção Vagalume. Foi ali, guiada por uma professora de português que era “grande incentivadora e exemplo”, que Renilda Viana descobriu a potência de ler e escrever as próprias histórias.
“Minha relação com a leitura e a escrita teve início nos bancos escolares. Havia um incentivo, que infelizmente foi se perdendo ao longo do tempo”, relembra.
Aquela centelha inicial jamais se apagou — só cresceu.
As referências que moldaram uma escritora
Renilda construiu uma biblioteca diversa que acompanha as fases da sua vida. Na infância, os contos de fada ganharam vida através das histórias contadas pela avó materna — foi dela que ouviu pela primeira vez a história de João e Maria, e por um tempo, conta com doce inocência, “imaginou que a história era dela”.
Depois vieram os Irmãos Grimm, Perrault, Ruth Rocha, Eva Furnari e O Pequeno Príncipe. Na poesia, Cecilia Meireles, Florbela Espanca e Roseana Murray. Na literatura nacional, nomes como Clarice Lispector, Raquel de Queiroz, Graciliano Ramos e Suassuna. No plano internacional, Saramago, Camus, Huxley e Orwell.
Uma constelação literária que alimenta sua escrita até hoje.
A coragem de publicar e os desafios do mercado
Lançar o primeiro livro não foi um ato impulsivo. Renilda passou por um processo de amadurecimento: começou “apenas querendo copiar os ídolos”, descobriu que levava jeito, e foi escrevendo e alimentando o desejo de mostrar sua criação até sentir-se segura para publicar.
Mas o caminho não é simples. Ela aponta um dos maiores desafios que escritores independentes enfrentam:
“Profissionais mercenários. O mercado literário tornou-se especulativo demais. Muita gente interessada apenas nos lucros financeiros, poucos envolvidos com a democratização do acesso aos livros e com o incentivo à leitura.”
Uma crítica direta a um mercado que, na visão dela, deveria priorizar o acesso e a formação de leitores — não apenas o lucro.
Uma literatura que denuncia e reflete
Se há uma marca registrada nos textos de Renilda, é o cotidiano como matéria-prima. Ela escreve numa linguagem simples e acessível, seja na poesia ou na prosa, e não foge dos temas que importam.
Na literatura infantil, aborda questões contemporâneas com sensibilidade: o uso da tecnologia em Angelina não quer brincar, o transtorno do espectro autista em Theo, o racismo em Clarinha, pretinha. Na poesia, o respeito ao meio ambiente ecoa em Poesia à sombra dos ipês. E agora, no seu primeiro romance, O beijo da ponte, traz à tona o machismo, o sectarismo e o preconceito social e religioso.
“Minha inspiração vem do cotidiano. Digamos que é uma literatura denunciante e reflexiva.”, define.
O Nordeste como chão e horizonte
Nascida na terra de Jorge Amado, Suassuna e Patativa do Assaré, Renilda carrega o Nordeste em cada palavra.
“Em todos os aspectos. O Nordeste respira história, cultura e literatura.”
Essa identidade regional não é apenas pano de fundo — é a própria substância do que escreve.
O processo criativo e a importância dos saraus
Seu método de escrita é orgânico e disciplinado ao mesmo tempo. Ela escreve quando algo pede registro — e então decide se cabe num poema, numa crônica ou num conto infantil. O horário preferido? As primeiras horas do dia.
E quando perguntada sobre saraus e clubes de leitura, a resposta é poética: “Funcionam como uma bateria; recarregam nossa imaginação e fortalecem os laços com o nosso compromisso. São os nossos bálsamos relaxantes.”
O conselho para quem quer começar
Simples, direto e poderoso:
“Faça da leitura um hábito. A pessoa que não lê não tem como gostar e querer escrever. Comece lendo.”
O que vem por aí
O grande projeto do momento é O beijo da ponte, seu primeiro romance, que traz uma mensagem urgente sobre respeito, igualdade e direitos. E os leitores podem encontrar suas obras em diversas plataformas: UICLAP, Clube de Autores, Amazon, Estante Virtual, Editora TAUP, Editora Minimalismo e na loja online do Danado de Bom.
3 respostas
Como Nordestina, muito me orgulha ter conhecido a escritora e editora independente,Renilda Viana. Sua dedicação e capacidade em escrever e publicar seus livros, me inspiram. Seus livros são verdadeira obra literária . Parabéns Renilda!
A admiração é recíproco, querida! Uma nordestina arretada!
Renilda encanta tanto com a simpatia e desprendimento como em sua escrita, sensivel e inteligente. Conheci Renilda pessoalmente em Salvador- Bienal e sei q tenho nela uma amiga. Acabei de receber o Beijo da Ponte e está na fila tb A sombra dos Ipês.