“A casa tinha paredes grossas, feitas para barrar o sol, mas eram finas demais para segurar o som do meu pensamento. Eu escrevia no escuro do quarto, sentindo o cheiro do café que vinha da cozinha, onde vozes familiares debatiam o preço do milho e a falta de chuva.
Para eles, eu era apenas um corpo sentado; para mim, eu era um rio transbordando sobre o papel. Cada frase que eu paria era um filho sem certidão, ignorado pelos padrinhos que deveriam lhe dar a benção.
Olhei para as mãos de meu pai, calejadas pelo cabo da enxada, e olhei para as minhas, manchadas pela tinta da caneta. O silêncio dele não era falta de amor, era falta de léxico.
Eu era o único daquela estirpe que falava uma língua que ninguém mais ali sabia ler, e essa era a minha maior glória e a minha mais profunda condenação: ser o Pajeú inteiro dentro de um homem só, sem ter com quem dividir a enchente.”
3 respostas
Gostei da imagem, ficou perfeita para o texto…
Lindo texto. Vejo vc, criança ainda, com o mesmo desejo que vc carrega ainda hoje: escrever o que lhe vai na alma. Escrever é o que nos faz vivos.
Parabéns Poeta Léo Pajeú. Belo texto.