Transformando histórias nordestinas em patrimônios de leitura

O segredo, Renilda Viana

Viriato era um senhor daqueles que todos queriam tê-lo como amigo. Qualquer um que se aproximasse tratava logo de fazer um agrado. Transportava mulheres para parir, acompanhava bêbados até em casa e estava sempre pronto para socorrer a vizinhança com sua velha Brasília amarela, a qual apelidou de Canarinho. Bom marido, bom pai e muito querido por todos os agregados da família: tios, primos, sobrinhos e sogra. Viriato, sujeito corpulento e temente a Deus, às vezes era chamado de herói por muitos que precisaram de seu socorro. Com esse seu jeitão de bom “irmão”, não deixava ninguém na mão. Canarinho conhecia todos os becos e vielas do bairro. Corriqueiramente, precisava fazer duas viagens: levava a família para casa e voltava para atender as “irmãs” que o aguardavam na frente da igreja.

Pensa que ele se chateava com isso? Nada! Galanteador que era, ia de prosa durante todo o percurso na entrega a domicílio.

A vida da família Viriato corria como um rio tranquilo, sem ribanceiras de quedas bruscas. Até que algo inusitado aconteceu e mudou a rotina daquela casa. Seria um dia comum se não tivesse o casamento da prima no interior; ninguém da família poderia faltar à cerimônia, óbvio.
Pegariam a estrada logo ao nascer do sol para chegar cedo e aproveitar bastante essa parentada. Canarinho foi toda polida no dia anterior para não fazer feio no casamento; afinal, seria a responsável por transportar a noiva até a igreja.

Bom, todos bem acomodados como sardinhas em lata, com o bagageiro de teto bem amarrado para as malas não saírem voando, seguiram. Viriato assumiu o volante feliz e assobiando um louvor, dirigia Canarinho como quem pilotava um avião. Quando pegou a rodovia, num movimento brusco, sentiu algo tocar nos pés. Abaixou a cabeça e viu uma sandália de veludo. “Como assim?” perguntou-se. “Será de uma das irmãs que levei em casa ontem?” “O que minha mulher há de pensar ao ver essa sandália no carro?” Viriato ficou desesperado diante da situação. Disfarçadamente, abaixou-se e pegou a sandália. Conferiu e logo descobriu que não pertencia à esposa nem à filha. “Preciso me livrar disso,” pensou.
Abriu o vidro: “Que calor! Vejam! Um bando de papagaios!” Quando todos se viraram à procura das aves imaginárias, num golpe, a sandália voou pela janela, indo pousar na rodovia.

Pronto, livrou-se do problema. Subiu o vidro e voltou a assobiar seu louvor preferido. Quase duas horas de viagem, chegaram ao destino. Viriato saiu da Brasília esticando os braços, feliz por conduzir a família mais uma vez. Ficou aguardando todos saírem para seguir juntos para a casa da noiva. Os minutos corriam e a sogra continuava dentro do carro. “Vamos, mamãe, por que a demora?” A mãe colocou a cabeça para fora do vidro e gritou: “Não estou encontrando minha sandália; tirei-a para descansar os pés e ela sumiu.”

Depois de revirar todo o interior do carro e comprovar o desaparecimento, a sogra, provavelmente, até hoje vive a buscar na memória uma razão para ter saído de casa somente com um pé calçado. Um segredo que o genro, certamente, levará para o túmulo.

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3 respostas

  1. KKKK que situação!! Texto bem humorado e pobre da sogra achando que ficara doida. Aconteceu algo parecido comigo no tempo em que andar de havaianas na rua não era comum, só na praia. Eu fui trabalhar de chinelo. Só percebi no metrô, mas não tinha mais jeito. Como me zoaram!!!

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