Transformando histórias nordestinas em patrimônios de leitura

A Ilha de Letras no Mar de Caatinga, Léo Pajeú

A solidão do intelectual sertanejo é, antes de tudo, uma questão de frequência. Enquanto o entorno se ocupa com o pragmatismo da sobrevivência — a lida, o tempo, o sustento —, o escritor se ocupa com a simbologia da existência. No Nordeste, onde a palavra cantada (o repente, o cordel) tem valor de uso social, a palavra escrita e reflexiva (o ensaio, o romance moderno) muitas vezes é vista como um luxo ou uma estranheza.

​Para a família, o intelectual é aquele que “está presente, mas não chegou”. Há um abismo entre o filho que janta à mesa e o autor que dialoga com os clássicos ou disseca a estrutura social do Pajeú. Essa descrença familiar não nasce necessariamente da maldade, mas de uma incapacidade de traduzir o invisível. O intelectual torna-se, então, um estrangeiro em sua própria genealogia. Sua resistência, contudo, é o que garante a permanência da cultura: ele é o arquivo vivo que transforma o pó da estrada em imortalidade literária, mesmo que o preço seja o silêncio dos seus.

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2 respostas

  1. Ohh, meu Agente Léo, que versos tocantes…mas a criatividade faz parte do DNA do escritor e poeta. Nao tem como tirar isso, não se faz cirurgia plástica na alma com a mesma facilidade que se muda um nariz ou rosto. Parabéns pelo texto.

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