Transformando histórias nordestinas em patrimônios de leitura

A empregada Rosa – Renilda Viana

Ela chegava ainda com os restos da luz da lua sendo engolidos pela luz do dia que despontava por detrás dos arranha-céus, carregando os pães frescos, ainda quentes. Avexada no seu jeito peculiar de ser, destrancava a porta com sua chave reserva, privilégio conquistado com os anos dedicados aos donos do sobrado. Uma construção moderna para a época, localizada num bairro da capital baiana, de nome inusitado: “Pau Miúdo”. Sempre me despertou curiosidade o tal nome, mas também nunca procurei saber sua origem; fossem em épocas atuais, teria dado um Google. Ali vivia a famigerada família Margarina: o casal e três lindas meninas. Ele, um executivo do Polo Petroquímico. Ela, uma exímia gerente de loja no setor comercial. As meninas traziam no nome a letra inicial da mãe, M.
Foi durante umas férias da família que a empregada Rosa começou a “fazer parte” da família. As Ms, como eram tratadas quando se referia às filhas do casal, eram bem pequenas quando ela chegou. A mais nova nasceu já sob os cuidados da empregada Rosa. Gosto de frisar o adjetivo “empregada”, pois as Rosas, Marias, Joanas, Lúcias etc. ganhavam o prefixo no nome assim que eram contratadas informalmente para “fazer parte” das famílias de classe média. Era comum ouvir: minha empregada Maria, minha empregada Joana. Status para a classe média que não se traduzia em salários às empregadas; muitas recebiam apenas alguns trocados e sobras da casa, como alimentos, roupas e sapatos gastos, um móvel ultrapassado etc.
A empregada Rosa chegou ainda muito jovem, na flor da idade. Provavelmente, carregara consigo muitos sonhos de uma vida promissora na cidade grande. Sonhos esses, engolidos pela realidade da vida dura de quem se tornava “membro da família”. Ao entrar na casa, seu primeiro destino era a cozinha. Aproximava-se da pia, fixava os olhos no fundo e prendia os cabelos, colocava sua touca; em seguida, seu avental, retocava seu batom vermelho cor de carne e começava a preparar o café da manhã. Para os patrões, ovos mexidos; para as Ms, mamadeiras. Mesa posta, passava para a área de serviço. Caprichosamente, separava as roupas infantis para um programa especial de lavagem. Depois, as roupas dos adultos. Uma vez por semana, as roupas de cama, mesa e banho. As cortinas, uma vez por ano.
As tarefas da empregada Rosa sucediam sem trégua: café da manhã, lavar roupas, arrumar as crianças para a perua escolar, preparar e servir o almoço, lavar louças e passar roupas no resto da tarde. Mas o dia da empregada Rosa não encerrava aí. Ao cair da tarde, novamente o avental, batom retocado em frente da pia e o jantar era preparado e servido. A família, satisfeita, se encaminhava para o andar de cima, obedecendo a um ritual: hora da empregada Rosa fechar sua jornada diária, retornando no dia seguinte, quando o café fosse servido. E era nesse momento que algo singular acontecia. Ao reorganizar a cozinha e lavar a louça do jantar, a empregada Rosa dedicava longos minutos lavando a cuba inox da pia. Passava bombril, esfregava, lavava, lavava até que seu rosto refletisse nítido no fundo. Depois, secava com um pano de prato e, para garantir a perfeição, passava folhas de papel toalha. A pia lustrosa, um verdadeiro espelho de prata, era o ápice de mais um dia de trabalho. Finalizava com um banho rápido no apertado banheiro sob a escada, a bolsa a tiracolo, e ela seguia para casa, cansada, mas feliz. Nem o papa ousaria beber um copo d’água na cozinha da empregada Rosa depois de sua despedida. Ela perdera a conta dos Natais roubados, dos sonhos adiados, mas, em todos esses anos, Rosa se orgulhava de um fato inabalável: jamais, em nenhuma manhã, encontrara sua pia molhada. Aquele reflexo prateado, tão imaculado quanto sua dedicação, era o seu pequeno, mas grandioso, triunfo diário.

@renildaedison

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2 respostas

  1. Antigamente era assim mesmo. A empregada deixava tudo tão brilhante q ninguém ousava mexer. Porém, geralmente, no andar de cima, havia um frigobar com água e chocolates e um pequeno bar num canto com taças variadas, copos, bebidas alcoólicas e refrigerante. Para q ninguém precisasse descer e ir até a cozinha. A empregada da “familia” mal tinha tempo para si mesma. Raras as famílias que deixavam a empregada ter vida própria. Bem colocado seu texto

    1. Querida Eliane
      Muito obrigada pelo valioso comentário e pelo carinho. Realmente, toda família de classe média, baixa ou alta, tinha sua empregada para chamar de membro da família. Muitas dessas mulheres, nem se quer tiveram oportunidade para formar a sua própria família.

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