Transformando histórias nordestinas em patrimônios de leitura

Vida de Caveira – conto de Eliane Seixas

Parte I           

            Era noite de lua cheia no Cemitério Municipal, e uma energia pulsava entre as lápides. Não era uma noite qualquer — era o aniversário de Dona Ofélia, a caveira mais antiga do quadrante sete, cujos ossos haviam testemunhado três séculos de operações por ali.

            À meia-noite em ponto, um estalido seco quebrou o silêncio. Depois outro, e mais outro. De sob a terra, de dentro dos mausoléus, caveiras emergiam, suas mandíbulas ossudas produzindo um som de castanholas. Olhos vazios cintilavam com um brilho fantasmagórico.

            A festa acontecia na cripta da família Albuquerque, desabitada havia décadas. Dona Ofélia, com o maxilar desconjuntado e uma rachadura no crânio— que contava a história de uma queda famosa — presidia a celebração sentada em um trono de mármore.
            As caveiras mais jovens dançavam ao som do vento que assobiava através das frestas — um jazz cadenciado. Alguns pares, como Cássio e Clotilde, encostavam-se contra um sarcófago, namorando. Ele sussurrava, com voz rouca, promessas de eternidade.

            Mas nem tudo eram danças e romance. Em um canto, um grupo de caveiras mais novas — a geração do “Osso Pop” — cochichava animadamente.

            — É simplesmente arcaico! — exclamou Zé Crânio, cujo crânio era bem liso. — Viver amontoado em catacumbas úmidas, sem vista para o bosque!                   — Ouvi dizer que, no setor leste, há uns nichos novos com vista para o riacho! — completou Marina.

            — É verdade — acrescentou outra, batendo os dentes com entusiasmo. — Eles até têm placas de identificação personalizadas. Dizem que é mais arejado.

            Marina, a mais prática do grupo, balançou a cabeça pensativamente.
            — Mas a localização aqui é boa, perto do portão principal. E a terra é fofa.

            A conversa foi interrompida pela chegada pomposa de Severino. Diferente deles, Severino não habitava a terra: morava no Mausoléu da Família Monte Castro, uma construção imponente de mármore branco com vitrais. Seu crânio tinha um brilho polido, resultado de séculos abrigado da chuva e do vento.

            — Boa noite, queridos inquilinos — anunciou Severino, sua voz ecoando como se viesse de um poço fundo. — Espero que estejam curtindo a festa. Aproveito para lembrar que o aluguel do solo do quadrante sete será reajustado.

            Um murmúrio de insatisfação percorreu o grupo. Zé Crânio foi à frente.
            — Aluguel, Severino? Isso é um absurdo! Nossos ancestrais repousam aqui de graça há séculos!

            — Progresso, meu caro Zé Crânio — retrucou Severino, com um ar de superioridade. — O mausoléu precisa de manutenção. E espaços Premium como este devem ser valorizados. Quem não puder pagar… bem, sempre há as catacumbas do setor oeste. Mais… populares.

            A festa perdeu um pouco do brilho. A ameaça de despejo pairou no ar como um fedor de corôa de flor murcha. As caveiras que dançavam agora sussurravam preocupadas. Até Dona Ofélia, a aniversariante, franziu a testa (jura? para uma caveira, é um feito e tanto).

            — Severino — disse ela, com voz fraca, mas cheia de autoridade. — Nestas terras já fomos todos iguais. Carne, osso e, por fim, pó. O luxo de um mausoléu não te torna melhor, apenas te afasta do solo que um dia nos nutriu a todos.

            Severino riu — um som seco e oco.

            — Sentimentalismo, Dona Ofélia. O mundo muda. Até para nós.

            Enquanto a discussão se desenrolava, um fenômeno começou a ocorrer na periferia do cemitério. Uma linha tênue de luz dourada começou a pintar o horizonte, atrás do bosque. Era algo mais temido do que qualquer cobrança de aluguel: o amanhecer.

            Um silêncio súbito caiu sobre a cripta. O vento parou. As caveiras interromperam a conversa.

            — O sol… — sussurrou Clotilde, esquecendo instantaneamente o “namoro” com Cássio.

            A farra terminou de forma abrupta. Não havia mais tempo, nem para disputas territoriais ou planos de modernização. O instinto falou mais alto: caveiras rolaram, saltaram e correram em direção às suas moradias.

            — Até amanhã à noite, Marina! — gritou Zé Crânio, enquanto despencava em sua catacumba.

            — Lembrem-se do aluguel! — bradou Severino, mas sua voz foi abafada pelo pânico geral. Ele mesmo, com toda a pompa, disparou em direção à segurança de seu mausoléu de mármore, temendo mais a luz do que a revolta dos inquilinos.

            Dona Ofélia foi a última a se mover. Com a dignidade de seus trezentos anos, desceu lentamente de seu trono de mármore e deslizou para dentro de sua sepultura, puxando a lápide sobre si.

Lá embaixo, no silêncio reconfortante da terra, as caveiras se ajeitaram em seus devidos lugares. Os planos de mudança, as cobranças de aluguel, os romances e as danças — tudo foi adiado.
 O dia pertencia aos vivos. A noite — e todas as suas complicações — teria de esperar pelo próximo crepúsculo.

Parte II

            Quando a noite cobriu novamente o cemitério, foi Severino o primeiro a se mexer. Hábito eterno. Deslizou para fora do mausoléu, conferindo se a porta estava trancada — um TOC desde quando era vivo, bastante desconfiado.

            Severino não cobrava aluguel por ganância, como diziam as caveiras em geral. Fora o último a ser enterrado ali com nome completo, datas bem definidas e talhadas, e um mausoléu pago por uma viúva que jamais voltou para visitá-lo. Corria uma tristeza profunda dentro de seus ossos.

            Quando os anos passaram e os vivos esqueceram, somente o mármore ficou. E também D. Ofélia, muito respeitada. As outras caveiras chegaram depois, jogadas, empilhadas, improvisando, como se o cemitério fosse terra de ninguém. Os vivos compravam um lugar ali e pagavam bem.

            No começo, Severino não deu bola. Um aqui, outro ali. Afinal, morte também é convivência. Mas logo percebeu que, sem regras, até o descanso vira bagunça. Caveira pendurando ossos onde não devia, fêmur largado no espaço alheio, festas atravessando a madrugada sem consideração pelos mais antigos.

            Foi então que instituiu o aluguel. Nada exorbitante — um dente de ouro, um terço enterrado, um favor ocasional, uma fita do Apostolado, um santinho.

            O pagamento variava conforme o desejo: quem queria sombra melhor pagava mais; quem fazia barulho demais pagava dobrado. Severino não queria bens, pois vinha de uma família abastada. Cobrava ordem. Embora nada possuísse atualmente, ainda queria sentir-se dono de alguma coisa.

            As caveiras reclamavam, claro. — Sempre reclamam! — pensou Severino. Mas pagavam. Porque, no fundo, sabiam: naquele campo santo esquecido, ele era o único que parecia se importar com elas e ainda lembrá-las de como era ter poder.

            Enquanto os vivos dormiam, sem imaginar as disputas subterrâneas, Severino ajeitou-se no centro de seu mausoléu, satisfeito. Amanhã à noite, cobraria de novo. Afinal, até na eternidade, nada é realmente de graça. Lembrou-se do Brechó de Almas, onde só entrava quem tinha passe de autorização.

            À primeira badalada da meia-noite, a cripta voltou a respirar. Um a um, os nichos se abriram, e as caveiras reapareceram como se nunca tivessem partido.

            — Boa noite — exclamaram algumas caveiras, ainda se espreguiçando.

            — Boa noite nada — resmungou Dona Ofélia, ajeitando-se em seu trono. — Dormi mal. Sonhei que estavam trocando meu mármore por cimento.

            — Ideia interessante — comentou Marina, com ironia. — Mais barato, mais moderno.

            — Moderno coisa nenhuma! — rebateu Clotilde. — Isso é sucateamento ostensivo.

            Severino pigarreou, só para lembrar que estava ali.

            — Antes de começarem: quem atrasou o aluguel da semana passada trate de se manifestar.

            — Isso é abuso de poder! — gritou Zé Crânio, saltando para o centro da roda da reunião. — Quem elegeu você síndico eterno?

            Um murmúrio percorreu o grupo. Algumas caveiras se entreolharam, animadas, concordando. Outras, desconfiadas.

            — Ninguém — respondeu Severino, tranquilo. — Eu estava aqui antes de vocês.

            — Ditadura funerária! — insistiu Zé Crânio. — Está na hora de eleições! Um conselho das catacumbas! Chega de um crânio só mandando em tudo!

            — Conselho? — Dona Ofélia riu, um riso seco. — Já vi conselhos demais em vida. Nunca acabam bem.

            — Mas a juventude precisa de voz! — rebateu Marina. — Queremos iluminação noturna, mais festas e revisão desses aluguéis arcaicos.

            — Arcaico é o respeito — cortou Severino. — E ele anda em falta.

            Cássio, que até então apenas observava, resolveu se manifestar:

            — Proponho uma campanha. Severino representa a tradição. Zé Crânio, a mudança. Que cada caveira escolha seu lado.

            O cemitério ferveu. Caveiras começaram a subir em lápides improvisadas, discursos pipocaram de todos os lados.

            — Prometo o fim do aluguel! — berrava Zé Crânio.

            — Promessas vazias! — respondia Severino. — Quem vai manter a ordem neste lugar?

            — Queremos rodízio de túmulos! — gritou alguém do fundo.

            — Absurdo! — retrucou Dona Ofélia. — Meu túmulo não entra em sorteio!

            A discussão só cessou quando o vento mudou de direção e mais uma manhã se aproximava.

            — Decidiremos na próxima noite — decretou Severino. — Política exige planejamento. Até lá, tudo continua como está.

            Houve vaias, ossos batendo em protesto, mas ninguém desobedeceu. Um a um, voltaram aos seus lugares.

            Enquanto se recolhia ao mausoléu, Severino sorriu — se é que caveiras sorriem. Sabia que, vivos ou mortos, ninguém resiste muito tempo à ilusão do poder. A noite seguinte prometia ser ainda mais empolgante.

Parte III

            Na terceira noite, o quadrante sete despertou diferente. O ar estava mais pesado. Até a terra sentiu que alguma coisa vinha pela frente.

            Antes que Zé Crânio abrisse a boca para mais um discurso inflamado, um som seco ecoou: toc, toc, toc. Era Severino, avançando ladeado por cinco caveiras de aparência pouco amistosa. Todas traziam marcas antigas de rachaduras mal cicatrizadas e um silêncio sepulcral.

            — Boa noite — disse Severino, com uma calma estudada. — Vamos reorganizar a conversa.

            — Desde quando você anda com escolta? — provocou Marina, recuando alguns passos.

            — Desde que a desordem virou uma atitude comum — respondeu ele.

            As caveiras milicianas — como logo passaram a ser chamadas — se espalharam pela cripta, ocupando entradas de túmulos e bloqueando acessos às catacumbas mais disputadas. Não gritavam, não falavam. Apenas estavam ali, imóveis, impondo presença.

            — Estes são: Caveira do Leste, Osso Frio, Caveira da Peste, Sangra-Chão, Caveira Negra — disse Severino, apresentando sua tropa de elite.

            — Isso é coerção! — berrou Zé Crânio. — Não é política, é intimidação!

            — Chame como quiser — retrucou Severino. — Eu chamo de segurança territorial.

            Dona Ofélia observava tudo em silêncio, os olhos vazios atentos demais.

            — Antigamente — disse, por fim —, isso se chamava “pacto com forças que não se controla”.

            — Antigamente — rebateu Severino. — Hoje, só me resta impor.

            Osso Frio bateu o maxilar uma única vez. O som bastou para calar metade da assembleia.

            — A partir desta noite — continuou Severino —, quem ocupar nicho fora do designado paga multa. Quem promover festa sem autorização dobra o aluguel. E discursos políticos ficam suspensos até segunda ordem.

            — Você não pode fazer isso! — insistiu Marina, agora com a voz trêmula.

            — Posso — respondeu ele. — Porque quem controla a passagem controla o território. E quem controla o território… controla o silêncio.

            O murmúrio que se seguiu era de medo e insegurança. As caveiras começaram a recuar, voltando para seus espaços, evitando cruzar olhares com a milícia óssea.

            Zé Crânio permaneceu no centro, imóvel.

            — Isso não vai acabar bem, Severino.

            — Nada acaba bem — respondeu ele, já se afastando. — Mas acaba do meu jeito.

            Quando o vento fresco anunciou o fim da noite, tudo estava organizado demais. Silencioso demais. Cada caveira em seu lugar, cada espaço delimitado, cada revolta engolida.

            No escuro, Dona Ofélia fechou sua lápide com um suspiro seco.

            — Até mortos repetem os vivos — murmurou.

            E, pela primeira vez, ninguém discordou.

Parte IV

            Na noite seguinte, todas as caveiras fingiram obediência. Tudo quieto demais para ser verdade.

            Dona Ofélia moveu-se sorrateiramente, deslizando até o quadrante oeste — o mais antigo, o mais apertado, o mais esquecido. Ali viviam as caveiras sem pedigree, sem mármore, sem nada além de tempo e rancor bem administrado. Marina e Clotilde, que não concordavam com Severino, seguiram D. Ofélia até o ponto da reunião secreta.

            Algumas caveiras do grupo OssoPop ficaram incumbidas de distrair os dois seguranças deixados ali a mando de Severino.

            — Caveira da Peste, ouvi dizer que tu anda tenso demais… — disse Ossudete, encostando bem perto. — Assim perde o foco.

            — Foco eu nunca perdi — respondeu ele, medindo a caveira novinha de cima a baixo.

            — Perde, sim. Principalmente quando alguém sabe onde olhar.

Do outro lado…do quadrante

            — Oh,Caveira Negra! Tu sempre foi assim duro ou só ficou depois de virar osso? — provocou Pelveneide, olhando sem pudor, toda rebolativa.

            — Olha a boca — ele riu, grave. — Posso gostar dela aberta demais.

            — Gosta nada, gosta é de se achar macho — rebateu ela. — Mas eu lembro bem desse tipo… fala grosso, mas treme quando encosta.

Voltando…

            Caveira da Peste chegou ainda mais perto de Ossudete.

            — Tu gosta de provocar, hein!

            — Gosto é de ver homem se perder — respondeu ela. — Ainda mais os que fingem que já esqueceram como era ter carne.

            Por um instante, os dois milicianos esqueceram o entorno. Missão cumprida.

            Enquanto isso, na reunião secreta convocada por D. Ofélia:

            — Chega de silêncio — disse ela, baixa, mas firme. — Organização também é forma de luta.

            As caveiras se agruparam em círculos discretos. Não houve discursos longos, apenas acenos, estalos de maxilar e decisões rápidas.

            Dentro do mausoléu, Severino cochichava estratégias com sua milícia. Não percebeu os ouvintes infiltrados — ou não lhes deu valor: vermes antigos, desses que conhecem túneis, rachaduras e segredos melhor do que ninguém. Os vermes ouviram tudo. Contaram tudo.

            Quando a invasão veio, veio limpa. Precisa. O povo do quadrante oeste avançou pé ante pé, cercando o mausoléu por baixo, pelos lados e por dentro. Nenhum osso foi esmagado. Nenhuma caveira perdeu dente. Foi uma tomada cirúrgica, elegante.

            A milícia foi desarmada da autoridade antes mesmo de entender o que acontecia. Fugiram, cada um por si, já que não conheciam lealdade a ninguém. Severino tentou discursar, mas já não havia plateia.

            — Está detido, preventivamente! — exclamou Cássio, seco. — Pelo bem comum.

            Severino soluçava sem parar, preso em seu mausoléu.

            — Sem anistia! Sem anistia! Sem anistia! — ecoava o clamor pelo Cemitério Municipal.

            Pela primeira vez em séculos, a cripta testemunhou algo raro: uma eleição justa. Sem gritos, sem medo, sem escolta.

            Zé Crânio foi eleito presidente, sob aplausos num bater de ossos. Clotilde ficou como vice.

            Dona Ofélia assumiu a tesouraria geral — ninguém questionou, ninguém ousou.

            Marina virou secretária principal, cheia de ideias e horários.

            Cássio tornou-se chefe de segurança, porque ordem também pode ser coletiva.

            E o juiz?

            — Sumiu — comentou alguém.

            — Nada disso — respondeu um verme, sempre bem informado. — Está no Brechó de Almas, dando a cada um o que lhe é de direito.

            A cripta riu. Um riso antigo, profundo, livre.

            Naquela noite, ninguém correu ao nascer da aurora. Felizes, as caveiras do quadrante sete ficaram acordadas até o último segundo, saboreando a estranha novidade: justiça, ali embaixo, finalmente tinha endereço fixo.

OBS:

– A Parte I de Vida de Caveira , escrita por Eliane Seixas, foi publicada na Antologia “Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse – A Morte” – organizada por Léo Pajeú

@leopajeu.bargomautorcompositor

Brechó de Almas , aqui mencionado – conto de de Luís Augusto Menna Barreto

@luismennabarreto

(www.mennaempalavras.blogspot.com.br)

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7 respostas

  1. Adorei! Muito criativa e divertida a forma de falar de assuntos atuais! Parabéns, Eliane!

    1. Laurinha, espero q vc se anime a escrever suas histórias. As poucas que li, gostei. Vc promete como escritora. Bjs 1000

  2. A autora, em sua gentileza, enviou-me a primeira parte de seu conto, e eu achei divertido demais, e, claro, com uma narrativa deliciosa! E, quase sem querer, perguntei para a autora: “e a outra parte?”
    Pois não foi que alguns poucos dias depois, ela enviou-me um arquivo com mais de uma parte em continuação?!
    Ah, eu gostei demaaaaaaaais!
    Não conhecia, ainda, o blog do Danado de Bom, que acompanho por redes sociais. Gostaria, sinceramente, que o Danado de Bom ampliasse o alcance para, quem sabe, abranger a Região Norte, onde moro há mais de 20 anos… há histórias maravilhosas por aqui… especialmente as Crônicas do Marajó, a “Macondo Marajoara”!!!

    1. Grata pelas palavras, vc me incentivou a continuar a vida das caveiras. Suas crônicas tb são divertidas demais.

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