Transformando histórias nordestinas em patrimônios de leitura

O amigo de tempo estiado, Léo Pajeú

Temos a estranha mania de batizar a amizade no fogo. Dizemos que “amigo de verdade é aquele que aparece na hora do aperto”. É uma frase bonita, heróica até, mas carrega uma armadilha: a de que a amizade precisa da tragédia para existir.

A verdadeira raridade, como bem posso pontuar, não é quem segura a sua mão no enterro, mas quem a segura numa terça-feira comum, sem porquê. É a escuta sem cronômetro. Hoje, quase todo mundo ouve já preparando a resposta, ou pior, ouve calculando como aquela informação se encaixa na própria vida. O amigo raro é aquele que pratica a “presença gratuita”. Ele não está ali porque você quebrou; ele está ali porque você existe.

Há uma diferença abissal entre o contato de conveniência e a continuidade. O contato busca algo; a continuidade cultiva. É o hábito de saber do outro quando o céu está azul e os boletos estão pagos. É a lealdade das pequenas consistências: o café que se repete, a piada interna que sobrevive aos anos, o silêncio que não incomoda.

No fim das contas, a amizade não deveria ser um extintor de incêndio, pendurado na parede para emergências. Ela deveria ser a luz da varanda: fica acesa só para dizer que, naquela casa, mora alguém que te espera, independentemente do tempo que faz lá fora.


@leopajeu.bargomautorcompositor

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4 respostas

  1. Que lindo, Léo, muito verdadeiro seu conto. Ser simplesmente um “To Aqui” sem cobranças ou explicações. Quase uma telepatia.

  2. Adorei a metáfora final. Realmente a amizade é a luz que nos acompanha mesmo a distância. Parabéns!

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