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Pirata (conto de aventura) – Por Renilda Viana

O dia amanhecera chuvoso. Mesmo assim, os quatro amigos mantiveram o plano de saírem para uma trilha. A atividade já estava agendada há dias. Logo cedo, após um reforçado café da manhã, partiram em direção ao pé da serra que daria acesso à trilha: Serra do Mar. Um percurso curto, um pouco mais de 3 km, ida e volta, porém com um pouco de dificuldade, devido ao terreno acidentado e ao chão molhado. Um carro os levaria até a entrada da trilha, que ficava dentro de um parque estadual. O passeio passaria por dois pontos atrativos: uma pedreira, que ficava logo no início da trilha, e duas praias paradisíacas que ficavam no final. Dali, retornariam para o ponto de partida, finalizando a aventura. Após orientações de uma funcionária do parque, que, aliás, os deixou preocupados ao informar que, há pouco tempo, uns turistas haviam sido sequestrados no local, recomendando cuidados e atenção, seguiram.

Logo na entrada da trilha, os quatro amigos foram recebidos com uma nuvem de pernilongos assustadores. Foi aí que perceberam que, na empolgação, não lembraram do repelente. Apesar do dia chuvoso, todos tinham protetor solar na mochila. Se lambuzaram de protetor e seguiram adiante. Alguns metros à frente, ficava a pedreira. Até ali, moleza! O caminho, apesar de molhado, estava tranquilo. Ao avistarem a placa indicando o local, apressaram o passo para fugir dos pernilongos que continuavam atacando. Que maravilha! Lá estava a beleza da natureza: um paredão de pedra de tirar o fôlego. Realmente, o nome correspondia à cena. O nome foi dado, provavelmente pelo fato da extensão que vai do chão até perto do céu. Ali, um gavião fazia festa. Cantava, cantava, parecia dizer que todos eram bem-vindos. Fotos e mais fotos foram tiradas. Os quatro amigos saíram extasiados pela beleza da natureza e seguiram em frente. Daquele ponto em diante, o percurso se tornaria mais dificultoso. Muitas pedras no caminho, chão molhado e escorregadio, e um tanto sombrio, devido ao silêncio de vozes humanas e ao barulho da mata. Eu diria que era um pouco assustador. Sobe aqui, desce ali, escorrega daqui, mata um pernilongo, e mais um, e seguem. Na metade da trilha, os pernilongos desaparecem; concluem que o protetor solar os afugentou. De repente, um tombo. Uma correria para verificar se estava tudo bem. Nada grave, apenas um punho dolorido e uma bunda cheia de lama. Seguem em frente, sempre atentos a qualquer movimento estranho, já que malfeitores poderiam surgir de dentro da mata a qualquer momento, segundo a informação passada. Opa! Mais um tombo. Dessa vez, só um susto. Seguiram mata adentro. Pegaram uma subida íngreme e bastante acidentada, com muitas pedras no caminho. Sobem, sobem, mais um tombo, sobem e mais um tombo. Ufa! Finalmente, o topo. Agora era só descer. No final da descida, estava o mar, e era lá que queriam chegar. Do meio da descida, já se ouvia o barulho das ondas e o canto das gaivotas. Saíram numa parte mais aberta, deixando a mata fechada para trás. Apressam os passos e correm ao encontro do cartão postal prometido na entrada do parque.

Ali estavam, de frente para uma beleza extraordinária: o mar rodeado de montanhas e grandes pedras decorando a praia. Uma beleza um tanto assustadora, selvagem. Os quatro amigos param diante da cena e falam: “sinistro!” Se veem sozinhos em um lugar completamente isolado. Ninguém os ouviria caso precisassem de socorro. Mas, já que chegaram até ali, foram dar uma volta até a segunda praia e fazer alguns registros; provariam que passaram por lá em um dia de chuva. Aliás, a chuvinha fina perdurava. Ao chegarem à segunda praia, ainda mais sinistra, foram recebidos por um cão, que saiu não se sabe de onde. Ele veio na direção dos quatro e começou a cheirá-los, como quem dizia: “sejam bem-vindos!” Por incrível que pareça, ninguém ficou assustado. Ele tinha uma mancha preta no olho, aparentando um tapa-olho. Assim que foi confirmado que se tratava de um macho, um dos amigos começou a chamá-lo de Pirata.

Pirata trouxe tranquilidade ao grupo, que, nesse momento, estava se sentindo muito vulnerável. Alguns minutos depois, decidiram que era hora de voltar. Pirata se pôs à frente e começou a rolar em seus pés, indicando que seria o guia. Encantados com tamanha proteção, que ninguém sabia de onde tinha saído, seguiram o cão. Com a experiência dos tombos na vinda, um dos amigos achou melhor que cada um se valesse de um cajado para melhor firmeza na volta. E assim foi feito. De cajado na mão e sob a proteção do Pirata, pegaram o caminho de volta. O amigo que recomendou o uso do cajado ia atrás, dando as instruções de como manusear o acessório: “põe do lado; segura com as duas mãos; cuidado, abre as pernas;” e assim seguia o tempo todo. Pirata seguia na frente; quando se distanciava, parava e ficava esperando o grupo. Quando avistava, continuava. Mesmo com o cajado, alguns tombos foram inevitáveis!

Os quatro amigos atravessaram a mata em segurança e muito mais tranquilos. Quando chegaram à entrada da sede, Pirata parou. Encarou os quatro, como quem dizia: “fico por aqui, estão seguros.” Tentaram convencê-lo a seguir com eles, mas o guia somente os encarava. Ele voltaria dali. Quando os quatro amigos perceberam que ele tinha sido um guia enviado para devolvê-los em segurança à civilização, seguiram e viram Pirata voltando em direção à mata fechada. Despediram-se com olhos lacrimejantes e agradecidos. Provavelmente, Pirata voltaria à praia selvagem para esperar e guiar novos aventureiros. Obrigada, Pirata! Quando se tem fé, nunca estará sozinho.

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3 respostas

  1. Renilda, seu texto é bem escrito e sensível. Depois de cumprirem o passeio, o Pirata foi o melhor fechamento dessa crônica de aventura, sendo um pet protetor, quase humano. E de um simbolismo muito bonito.

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