Transformando histórias nordestinas em patrimônios de leitura

Divórcio – De Renilda Viana

Foi amor à primeira vista. Entre juras de amor eterno e a troca de alianças, passaram-se poucos meses. O casal optou pela discrição, com apenas um juiz, um escrivão e os noivos para testemunhar o enlace matrimonial. Ela, professora primária; ele, um operário de fábrica. A união transcorria na mais absoluta tranquilidade. Acostumada com os ensinamentos da mãe, como quem segue uma cartilha, o esposo recebe roupa lavada, cama bem arrumada e comida à mesa. Ele, aprendera como todo homem de sua geração, a desempenhar o papel do provedor da família: um operário exemplar, um merecedor da moldura no quadro de avisos como o funcionário do mês.
A felicidade foi instalada no novo lar.
Com um provedor em casa, pra que trabalhar? Cuidar do marido e da casa passou a ser a sua obrigação, e ela fazia isso com gosto. Recolhia uma toalha molhada ali, um sapato jogado acolá e servia-lhe mais uma cerveja enquanto assistia ao futebol. Secava as mãos no avental e punha-se a preparar o jantar do casal.
Quanta sincronia! Uma vida perfeita.
Um dia, acorda indisposta. Não se levanta para o beijo de despedida para a fábrica. “Deve ter comido demais no jantar”, ele conversa com seus botões e vai embora. Com náuseas e tonturas, desiste de sair da cama. Lembra que suas regras desapareceram há alguns meses. Guardou a novidade para o momento certo.
Retoma a rotina. Os enjoos foram acentuando a ponto de não mais conseguir disfarçar seu desconforto. Atento ao seu papel de macho alfa, ele não notou as alternâncias de humor da esposa. “Esqueceste da minha cerveja?” fala ironicamente. “Você não tem mãos?” responde instintivamente, como quem quer se defender de um ataque. Sem delongas, fala: “estou grávida!” Foi durante o jantar. A notícia caiu como uma bola de ferro no pé. Ele pula da cadeira e grita: “ficou doída? Ainda nem recebi a promoção do patrão! Como alimentar três bocas?” Ela corre para o quarto e chora copiosamente. Ele fica sozinho na sala de jantar. Repensa a situação. A notícia lhe pegou de surpresa. Convém pedir desculpas. Desculpas aceitas, o casal comemora em seu ninho de amor o fruto da união.
Mais alguns meses, chega Grace Kelly. “Poderia ser um menino para me acompanhar no futebol”, ele fala. Ela não liga. Está feliz e realizada. É mãe de uma menina.
A promoção não sai. A cada dia, tem que correr mais e mais para que nada falte à família. Ela, doméstica, esposa e mãe, passa para o estágio: estafa. O cansaço e o mau humor de ambos se tornam triviais na vida do casal. As discussões por banalidades passam a ser frequentes. Grace Kelly chora! Quer atenção dos pais. O casal não se reconhece mais. Ela quer voltar a trabalhar. Ele: “mulher minha não trabalha fora!” Grace Kelly chora! Precisa da atenção dos pais.
As discussões se agravam. A mesinha de centro na sala da casa transformou-se num boteco de esquina. Grace Kelly já aprendeu a abrir a geladeira e trazer a cerveja para o pai. Pela primeira vez, o funcionário do mês não foi trabalhar. Uma terrível dor de cabeça o impediu de levantar-se da cama. Só mais uma ressaca pós-bebedeira.
Ela decide que assim não dá mais. Anuncia que voltará para a casa dos pais. Ele esbraveja, grita, chuta a mesa. Grace Kelly chora! Tem medo dos pais. No colo da mãe, sai aos prantos com os braços estendidos, pedindo o colo do pai.
O amor de primeira vista troca seu último olhar.
O divórcio foi assinado.

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2 respostas

  1. Renilda, porreta! Sua história mostra a fragilidade das relações pautadas em papéis distintos, com falta total de maturidade. Não há parceria ou troca. No início me vi, com a diferença de q eu trabalhava fora. Seguia o modelo de minha mãe q cuidava do papai integralmente, casados “até q a morte os separe”. Qdo minha filha nasceu meu marido não aguentou a responsabilidade a mais. Pulou a cerca. A diferença: sem briga ou gritaria. Só tive vergonha na cara e disse basta. Sua história me trouxe lembranças , sem raiva, só uma “cosquinha” de tristeza. Parabéns, vc colocou muito bem.

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