Transformando histórias nordestinas em patrimônios de leitura

Quando a poesia nasce da amizade: a trajetória de Paulo Mapu, Jussara Burgos e o poema premiado

Uma história de afeto, rios e versos entre o sertão pernambucano e as águas do Brasil

1. A origem da amizade

No sertão pernambucano, mais precisamente em Sertânia, surge uma história que revela como a literatura pode nascer dos vínculos mais genuínos. Uma história entrelaçada pelo escritor Paulo Mapu, membro da rede ESCRITOR DANADO DE BOM, a poetisa Jussara Burgos, hoje radicada em Goiás, filha de seus padrinhos, oriundos de Custódia — município vizinho a Sertânia, igualmente reconhecido por sua tradição poética, Ramon Japiassu, primo de Jussara, e o amigo Digerson Almeida que acompanhou Mapu em sua jornada pelo mundo, na condição de companheiro de estrada.

Conforme Mapu, os três — ele, Ramon e um terceiro conterrâneo de Sertânia — partiram em busca de novos horizontes, estabelecendo residência em diferentes regiões do Brasil. Foi no Amazonas, contudo, que a história adquiriu contornos verdadeiramente literários: ali, Mapu compunha poemas que, em seguida, rasgava e lançava ao rio, entregando os fragmentos de papel à correnteza.

Dessa vivência singular nasceu “Os Rios Correndo em Mim”, poema inspirado nos cursos d’água que marcaram a trajetória do autor. Mapu acreditava ter compartilhado essa história diretamente com Jussara; ela, porém, revelou que o relato lhe chegou por intermédio de Ramon. Inspirada pela narrativa, a poetisa compôs um poema dedicado ao amigo — intitulado simplesmente “Mapu” —, obra que viria a ser agraciada com uma distinção literária. A amizade entre ambos, como a própria autora registra, foi edificada por seus pais.

2. O poema de Paulo Mapu

Transcrito pelo autor a partir de seu livro Mulher Lua, o poema percorre os rios de cada lugar por onde passou:

Os Rios Correndo em mim

Só agora me dei conta

Que os rios contam

A minha história

Em Sertânia o Moxotó

Sem pena e sem dó

Desvia seu curso

Me jogando no Velho Chico

No Recife o Capibaribe

Como uma catapulta

Me lança no Rio Guamá

No Amazonas

O Negro e o Solimões

Guardam alucinações

Poemas lançados

Em papéis picados

Com destino ao mar

Na Bahia

Rio de Contas

Me conta da família

Matogrosso

E seus encantos em Itacaré

Na Venezuela

Rio Orinoco

Carimba meu passaporte

Na primeira fronteira

Em busca de outros rios

No Caribe

Cuba me chama

Até Baracoa

No Rio Toa

À toa…

Poema do livro Mulher Lua — Paulo Mapu

3. A resposta de Jussara Burgos

Em resposta, Jussara Burgos compôs o poema que dedica ao amigo:

Mapu

Nas veias do meu amigo

correm rios que ele conheceu.

Águas de doces lembranças

do seu sonhar.

Águas fluviais

correm na certeza

do encontro com o mar.

Rios são caminhos tortuosos

vencendo obstáculos

em busca da sua grandeza.

Sobre os rios, tem pontes

ligando gente e seus ideais.

Sobre os rios, balsas, canoas e barcos

dizendo que navegar é preciso

para poder chegar.

O rio é etéreo,

é um momento que não se repete jamais.

Rios tem calmarias e temporais…

Na correnteza, os sonhos chegam e vão.

Rio é vida que segue…

É um eterno recomeçar.

No remanso dos rios

tem borboletas a voar

e flor de mussambê

pra meu amigo brincar,

sentado às margens do rio,

escrevendo poemas em pedaços de papel;

fazendo barquinhos

que a correnteza do Solimões levava embora…

Era poesia que nas águas corriam.

Para Paulo Mapu — Nossa amizade foi construída por nossos pais

4. O reconhecimento

O poema de Jussara rendeu-lhe a honraria Destaque Acadêmico 2026 – Mérito Acadêmico Imortal, acompanhada do Diploma de Mérito Acadêmico Ciccillo Matarazzo, outorgado pela Academia de Letras de São Pedro da Aldeia (ALSPA). A distinção foi entregue em 6 de setembro de 2026, durante a Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em cerimônia conduzida sob a presidência de Rogério Veiga e com a participação da Presidente de Honra, Leni Ziliotto.

A premiação reconhece a trajetória de Helena Jussara Pereira Burgos Monteiro — a Jussara Burgos da nossa rede — por sua contribuição às artes e à cultura, e presta, ainda, reverência ao legado de Ciccillo Matarazzo, idealizador da Bienal de São Paulo e figura central na abertura do país à arte universal.

Para encerrar

Essa história evidencia que a poesia, quando nutrida por laços verdadeiros, transcende a página e circula entre gerações e geografias. Dos rios de Sertânia às águas do Solimões, das margens do Orinoco ao mar do Caribe, a palavra segue seu curso — e, como os rios, encontra sempre o caminho do encontro.

Que a amizade entre Paulo Mapu, Jussara Burgos e Ramon Japiassu permaneça como testemunho de que a literatura nordestina, longe de correr solitária, floresce na partilha.

Jussara Burgos ocupa a Cadeira 34, sob a patronagem de Rachel de Queiroz na Academia Valparaisense de Letras- AVL em Luziânia Goiás.

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