Transformando histórias nordestinas em patrimônios de leitura

A Menina que Limpava Livros – Por Paulo Mapu

Era seu primeiro dia como higienizadora de livros na Biblioteca, nada melhor do que começar pelo Poema Sujo de Ferreira Gullar, era preciso deixá-lo limpinho, onde já se viu um poema sujo.

Enquanto limpava os poemas, seu coração se agitava com o poder das palavras que saltavam dos livros, como se tivessem vida própria. Seu trabalho foi se tornado uma missão e sem pedir permissão, foi modificando os versos de acordo com sua imaginação.

Não bastava matar os fungos, retirar o mofo impregnado pelo tempo, era preciso ir além, limpar os versos e os gestos, que para ela, era mais forte do que a própria sujeira contida nas páginas.

Foi assim que, com pena do Bicho homem de Manuel Bandeira, catando comida entre os detritos, resolveu sentá-lo em uma mesa farta de alimentos ao lado de gente importante, como está escrito nas Sagradas Escrituras: Deus tira o pobre do monturo e o faz assentar ao lado de príncipes do seu povo.

Umas pilhas de outros autores ficaram sobre sua mesa, para no dia seguinte serem higienizados e se necessário modificados em histórias alegres. Afinal chega de tanta tristeza pensava a menina.

Logo cedo na manhã, cai na sua frente o poeta Leminski brigando com sua própria criação, que como, ele, tornou-se revoltado e desobediente, rimando frases não ditas, nem pensadas por ele.

À medida que ia limpando os livros, ela também se limpava dos seus conceitos e preconceitos, foi assim que entrou em contato com Maiakovski e lavou seu coração enlouquecido pela paixão.

Não foi sem razão que mexeu nos versos de Augusto dos Anjos, mudando o gosto de cemitério em alegres poemas primaveris.

Não poupou os clássicos, ressuscitou Romeu e Julieta, que envelheceram juntos vivendo de amor.

Achou muito asqueroso a barata de Kafka, dela fez surgiu uma colorida borboleta em pleno voo pousando em uma flor.

Teve pena de Mário de Andrade, atirando suas tripas para o diabo, num gesto piedoso deu-lhe um destino mais digno, jogou-as para os urubus. O resto deixou como estava: o sexo na Paissandu, os pés na Rua Aurora. Apenas fez uma mudança em relação aos ouvidos, telégrafo não mais existe, se quiser saber da vida alheia, basta deixar os ouvidos em cima da Torre de Brasília e ali ficar bem atento.

Enquanto ia limpando os livros ia também se politizando, assim descobriu que a fome não era uma sina, a fome não era preguiça, nem tampouco um destino. Foi graças a Josué de Castro, com seu livro proibido, que veio a revelação: a fome era produto da má distribuição.

Paulo Mapu

Livro: Mulher Lua

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Uma resposta

  1. Que conto lindo. Parabéns!!! Ela escrevia (imaginava) fanfics dando destino diferente aos personagens ou poemas. E com isso tirava suas próprias conclusões sobre a vida. No meu primeiro livro Histórias D’Eu e D’Ozotros escrevi 3 fanfics: do “Cais da Sagração”de Josué Montello; de, “Amores, Marias e Marés” de Chico Fonseca; de “Pedro Jeremias vol 3” de Efigenio Moura. Amei fazer isso.

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