Talvez vocês não se lembrem de mim. Quero me apresentar, eu sou o Felizardo, aquele cara que certa feita, tendo encontrado na Grécia uma guia de viagem de vertiginosa beleza, chamada Melina, por ela se apaixonou e com ela viveu um ardoroso caso de amor, digno de matar de inveja deuses gregos e romanos.
Pois bem senhores, Melina não aceitou vir comigo para o Brasil, e fez ela muito bem, preferiu ir para a Itália onde se casaria com Hermes, seu noivo rico.
Uma vez casada na Itália contudo, morando em uma simpática cidade da Toscana, escrevia-me todos os dias, por e-mail ou WhatsApp, relatando a saudade que sentia de mim, confessava ela em suas correspondências que somente comigo poderia ser feliz. Me pedia que, pelo amor que eu dizia a ela devotar, fosse com ela viver, para preenche-la de tão bons carinhos.
Com todo amor que eu realmente sentia por Melina, por toda vontade de estar perto dela, quando pensava em seu corpinho branco, nu, estirado em largas camas, mesmo sabendo que incorreria em grande risco, eu ficava encorajado e, muitas vezes saia a dirigir pela cidade pensando e pensando, como que desfolhando uma margarida: vou, não vou, vou.
Certo dia, no fim de uma ensolarada manhã, peguei o carro e saí em direção ao centro histórico. Dirigia lentamente pelas velhas artérias da cidade. Saí da Ribeira ao Elevador Lacerda passando pela igreja de Nosso Senhor do Bomfim, onde comprei fitinhas. Passei pelo comércio em frente ao banco em que havia trabalhado, subi a ladeira da Montanha e após percorrer a rua Chile e praça da Sé retornei pela avenida Sete de Setembro em direção ao Largo do Campo Grande. Quando passava, como sempre, em saudosa marcha lenta, contemplativa, talvez me despedindo das paisagens que me viram crescer, eis o que acontece, assim como um relâmpago:
Uma senhora, e uma menina de aproximadamente treze anos, caminham pelo passeio, uma mulher, moradora de rua tenta tomar o telefone celular da menina, ela não consente, a moradora de rua dá-lhe um tiro fatal. Pude escutar o ruído da execução. Meus olhos umedeceram ao ver aquela mãe em prantos tentando reanimar a filha morta caída na sarjeta.
Daí a ideia de passeio pelas antigas ruas de Salvador que eu tanto admirava, que tantas recordações me traziam se foi junto com aquela vida ceifada em sua plena juventude. Continuei dirigindo rumo ao bairro da Vitória, desci a Ladeira da Barra, procurava um local em que pudesse parar para amparar a mim mesmo, esmaecer a dor que naquele momento sentia, a vergonha de ser brasileiro e sobretudo de ser baiano.
Sentei-me em um barzinho no Porto da Barra, em frente estava o mar infinito que prometia me acalmar. Me pus a refletir solvendo uma generosa dose de uísque com gelo.
Vinte anos de governo da esquerda. Em que melhorou este país meu Deus. Em nada. Acho que até piorou. Recordo-me das incontáveis vezes em que, como um bom boêmio, vaguei por essa querida cidade, em estado etílico ou não, nunca me senti ameaçado. A pobreza sempre houve, os perigos existiram, porém proporcionalmente bem menores que hoje. A pobreza cresceu assustadoramente e a facilidade se se drogar também.
Quando trocamos de governo a vinte anos atrás, queríamos resolver os nossos problemas sociais, queríamos que essa parte da pobreza fosse integrada, vivesse com dignidade. Mas qual o que. Ao governo interessa a existência de pobres e abaixo da linha da pobreza que vivam dependentes de sua ajuda. Hoje quando trânsito de carro pelos bairros periféricos da cidade me sinto amedrontado e envergonhado com a quantidade de favelas existentes. O centro da velha cidade está repleto de moradores sem teto, essa mulher que assassinou a adolescente é uma moradora de rua em busca de dinheiro para se drogar, para anestesiar a droga que é sua vida. E o Nine diz que que os traficantes são as vítimas da sociedade.
Eu devo haver contribuído para esse caos, porque votei nos vermelhos, uma experiência nova, porém péssima. Logo que compreendi que o partido tinha um propósito evidente, de se perpetuar no poder, eu mudei de opinião. Sim, porque como dizem errar é humano, mas persistir no erro é burrice.
Eu mudei meu voto quando o partido vermelho passou a apoiar ditaduras, apoiar grupos terroristas e roubar desregradamente, à vista de tantos escândalos de corrupção que aconteceram e continuam acontecendo. Até meu pobre pai, aposentado, foi roubado em seus vencimentos pelo “INSS”.
Porém, o que mais me impressiona nisso tudo é o apoio que o partido tem de grande parte da população. Sabemos daqueles que o apoiam porque tem interesse nos desmandos, aqueles que pensam que com o tal partido terão salários melhores, sabemos que a categoria de artistas em geral o apoia porque pensam em ajuda financeiras para suas exibições, pelas quais cobram altos preços nos ingressos e os menos favorecidos não podem ir. Vamos considerar, todas essas atitudes demonstram uma grande falta de caráter, uma grande falta de nacionalismo. O escritor Lima Barreto tinha razão: “O Brasil não tem povo, tem público. Povo luta por seus direitos, o público assiste de camarote”. Ou luta pelo seu bem-estar em detrimento dos demais. O público brasileiro é extremamente egoísta.
Existem aqueles que são de esquerda por que o são, porque acham bonito, muitos intelectuais são assim, imagina um intelectual de direita! Até parece que assim já nasceram. É como se fossem torcedores do Bahia ou do Flamengo, que jamais deixarão de sê-lo mesmo que seus times estejam mal. Esse pessoal ao que tudo indica não raciocina bem, não observa politicamente o que é do bem ou do mal, não para si próprio, mas para toda a nação. Não adianta você ganhar bem e não poder sair nas ruas por causa de assaltos e assassinatos como acabo de presenciar. Muitos outros são de esquerda porque detestam os Estados Unidos, imperialista. Muitos porque são preguiçosos, não gostam de trabalhar e acham que a esquerda lhes pode sustentar com o dinheiro de quem trabalha e paga impostos. Tem os Marias vai com as outras que absorveram a ideia de imperialismo americano sem nem saber o que estão dizendo e escorregam no imperialismo chinês. Os que não gostam de trabalhar tem uma grande representatividade, inclusive os que tem emprego e não trabalham.
Olho para o copo e a primeira doze de uísque acabou, faço sinal a garçonete. Uma mulata magrinha de dentes muito alvos e muito bem alinhados, continuo ainda com a imagem do assassinato viva em minha cabeça e no meu coração. Quem sabe era o seu primeiro aparelho celular que tanto quisera?
Pior que tudo isso é a classe daqueles que se sentem desprotegidos na sociedade. Estão entre eles alguns negros, alguns homossexuais, algumas mulheres, esperando que o governo tome uma posição contra suas fraquezas. E o governo oportunista joga negros contra brancos, inventa cotas raciais ao invés de quotas sociais. Joga homossexuais contra heteros e, mulheres contra trans, e dessa forma vai conseguindo arrebanhar seguidores de mente desprevenida e muitos sem caráter.
Então, quando uma pessoa dessas classes nega todas as verdades sobre um político ruim, mesmo diante de todas as provas concretas mostradas para ela, tem essa pessoa uma razão inconsciente para assim agir.
– Aqui a prova! Eles confessaram, sicrano delatou beltrano, o dinheiro foi devolvido, as fotos estão aqui. Como aconteceu na operação Lava Jato.
A pessoa assiste tudo e diz que é tudo mentira. É montagem, não foi assim não. Isso não acontece sempre porque a pessoa seja mal caráter, é evidente que com estes também acontece e muito. Tal discordância acontece porque essas pessoas não se prendem a uma ideologia porque acha ela verdadeira, ela se prende a tal ideologia porque acha que aquela ideologia promete a proteger da forma como ela se sente, a posição emocional que ela tem, e não consegue encarar sozinha.
Alguém prometeu fazer isso em lugar dela. Você se sente inferior? Porquê é mulher, é negro, é índio, é gay, é pobre, é nordestino ou nortista? Vem para cá que vou cuidar de você. A pessoa passa a acreditar que ela está no lado certo, ela começa a acreditar nessa promessa, mesmo que esse lado certo faça tudo errado como fazem os vermelhos. É um lugar emocional é uma questão de pertencimento, de identidade, não precisa ter lógica e nem razão e, quando alguém contesta isso, a mente dessa pessoa não escuta o argumento lógico do outro, entra em modo de defesa, briga, xinga, tenta desqualifica o outro e continua colocando seus votos na urna de maneira irracional.
Vejam uma cidade tomada por traficantes que enfrentam a polícia e usam armas poderosas para tanto, derrubam helicópteros da polícia. A educação é péssima, a saúde é péssima, as rodovias são péssimas, mas todos não arredam o pé de seu medíocre modo de achar.
Clara, uma colega, certa vez falou em direitos humanos. Ela argumentou que a polícia não pode matar indiscriminadamente, acaba matando inocentes, porém ela acha que policiais podem morrer, os policiais são os agressores. Certa vez vi a Clara em uma passeata pedindo o fim da Policia Militar.
Agora, pensando melhor, somos um povo que tem a cultura de se achar esperto, de praticar pequenos furtos, pequenas fraudes, furar filas, a exigir honestidade das autoridades que saíram dessa mesma cultura de levar vantagem em tudo. Estamos realmente em um beco sem saída. Sinceramente este não é o meu lugar.
– Garçom! Mais uma doze por favor.
Estava na terceira doze de uísque John Walker e os pensamentos em meu celebro ficavam para lá e para cá como um trapézio veloz, procurando entender os fatos, explicáveis somente pela busca de perpetuação no poder de um partido socialista que, na verdade, luta apenas para que todos sejam miseráveis e dele dependentes, enquanto o pequeno grupo deles vive embevecido em suprema riqueza.
A verdade é que de escândalo em escândalo, um dos piores governos da história pode ser reeleito. Algumas pessoas já aceitaram isso, muitos brigam com amigos e familiares para defender o projeto de poder dos vermelhos. Eu acho, tenho quase certeza que se trata de uma doença mental, algo que os impede e ver as provas, ou talvez uma patologia da alma, talvez construída sobre a inveja, o ódio e o ressentimento, com a burguesia.
Já estava no meu quarto uísque. Olhei para o céu e uma nuvem amiga por lá aparecia alegremente a desenhar uma bota. Fiquei feliz e decidi. Iria para a Itália. Morreria nos braços de Melina, por um amor maravilhoso, e não na mão de bandidos defendidos pelo governo. Aqui estaria mais perto da morte do que junto a Melina.
E fui.
Monólogo da desesperança será publicado em novembro na coleção de Conto Latino da revista colombiana Palavra Ferida. O conto obteve uma pontuação de 10/10 e, nas palavras do júri, um conto que pulsa com a força da América Latina: suas memórias, contradições, dores e resistências. A narrativa consegue transmitir indignação, desencanto e conflito ideológico de maneira bastante direta, criando um retrato de tensões muito presentes na sociedade contemporânea brasileira. Um texto sensível, potente e necessário, capaz de ecoar muito além da última página.