Acordamos no susto lá pelas tantas da madrugada, com vozes alteradas ,
vindas da varanda da frente:
— O que houve, Alfredo? Você não me quer mais? — gritava uma voz feminina, fina que só.
— Não, não é isso… tô cansado! — respondeu ele, com aquela calma de quem já sabe que a DR vai render.
— Acabou o tesão, é isso? Tem outra na jogada?
Claro, o prédio inteiro virou plateia. Abri a cortina só um tantinho, fingindo naturalidade, mas já tinha um festival de frestinhas abertas por todos os andares. Se espionagem fosse profissão, aquele condomínio tava rico.
Na varanda, a cena digna de novela: ela, de camisola de cetim e ele, só de cueca e cigarro, com cara de quem queria estar em qualquer outro lugar.
A moça, inconformada, puxou o coitado de volta pro quarto e jogou-o na cama cheia de vontades, dando-lhe uma chave de pernas. Nem pensou em fechar a cortina, que pra nós, vizinhos, foi um presente.
Só que… o “Alfredinho” do Alfredo resolveu tirar folga bem naquela hora. E o rapaz já sem paciência, decretou:
— Chega! Já deu! — tirou a mulher de cima dele e voltou pra varanda, bufando.
Ela veio atrás, chorando, mas ele estava mais duro na cara que naquilo que interessava. A plateia, por sua vez, dividida: uns com dó da moça, outros com dó dele, e a maioria gargalhando por dentro.
Uma porta bateu. Silêncio. Presumimos que a moça foi embora. Só aí conseguimos dormir.
No dia seguinte, a cena do elevador foi impagável. Quem eu encontro logo cedo? Ele mesmo, o protagonista.
— Bom dia — falei, com a cara mais séria que consegui. Por dentro, pensava: Aí, Alfredo, negou fogo pra gostosona.
— Bom dia — respondeu seco e saiu como se nada tivesse acontecido.
Mal sabia ele que os vizinhos já estavam preparados no saguão:
— Alfredo broxou! Alfredão não deu conta! — riam alguns.
— Que gritaria de madrugada! — reclamavam outros, fingindo indignação, mas adorando a fofoca.
Até o porteiro ouviu tudo e balançava a cabeça concordando com qualquer um.
Mais tarde, um vizinho de porta contou que perguntou na lata:
— E aí, Alfredo, negou fogo?
— Ahhh, aquela mulher era muito grudenta! — tentou se defender.
— Então pra que levou pra casa, criatura?
— Eu ia terminar… mas ela foi logo me agarrando, se esfregando… não deu! E ainda fez aquele escândalo! — choramingou ele.
Só que Alfredão não deixou barato. Nos dias seguintes, trouxe uma, depois outra, e nenhuma reclamou de nada. Parece que o “Alfredinho” ressuscitou.
E assim, no dia a dia do condomínio, ficou registrado: na primeira noite, Alfredo não deu conta. Mas depois… Alfredão fez jus ao apelido.
Uma resposta
Adorei! Uma história contada com muita graça que a gente vai lendo e acompanhando, facilmente, com a imaginação. Eliane, vc sabe mesmo escrever. Tive que sorrir! 😁