Transformando histórias nordestinas em patrimônios de leitura

Julieta no Céu, por Eliane Seixas

(Julieta Hernández, ciclista venezuelana)

Julieta, levou um susto enorme, sentiu uma dor profunda inexplicável, mas partiu direto por um túnel de luz. Tudo aconteceu muito rápido. Ela agora via uma enorme porta à sua frente, etérea, pela qual passou sem que ninguém lhe perguntasse nada ou impedisse sua entrada. Caminhou olhando para os lados, atordoada, e viu alguém no final daquele lugar. Ainda não sabia onde estava e o que era tudo aquilo que experimentava. “Caramba quem será” Chegando mais perto ela a viu, a Mãe de Deus, N. Sra. das Graças, como ela se lembrava pelos santinhos que sua mãe tinha.

Ouvia passarinhos que cantavam bem-te-vi, bem-te-vi. Tremeu, mas sentiu-se enlevada ao se aproximar dela. Incrível essa visão! De suas mãos, agora estendidas em sua direção, saiam raios de uma luz azulada, suave, que a acalmavam e lhe davam clareza de pensamento. Nossa Senhora a abraçou fortemente e disse:

— Venha juntar-se a nós, mulheres. Seja bem-vinda ao Paraíso Celeste.

Julieta compreendeu que estava morta, mas não se lembrava exatamente o que lhe tinha acontecido.

Maria a conduziu a uma enorme sala onde foi recebida por Marielle que ela reconheceu na hora e lhe disse:

— Seja bem-vinda ao lugar onde todas nos reunimos, nós mulheres, que fomos martirizadas na Terra. Aqui é nosso refúgio. Fomos mortas sem dó nem piedade porque somos mulheres ou temos ideais. Nossas vidas importam. Também passamos direto pela Porta do Céu sem nenhum questionamento. E Julieta viu naquele mar de gente, Eloá, Mércia, Isabella, Sandra, Maristela, Angela, Luana, Carolina, Ana e milhares de outras, adultas, adolescentes ou até mesmo crianças. Somente mulheres. Marielle continuou:

 —A sociedade de alguma maneira é cúmplice de tudo isso que acontece porque muitas vezes se omite ou tenta justificar os porquês da violência contra nós. O feminicídio é banalizado como se os autores desses crimes pudessem mandar na vida das mulheres determinando como devem proceder ou o que pensar.  E ainda dizem: “ela fez isso ou aquilo, para merecer esse tipo de castigo”.

— Como assim? Questionava Julieta.

— E tem tantas maneiras de se caracterizar essa violência, começando pela tortura psicológica, manipulação, ameaças, agressões, assédio, abuso.

E as que mais sofrem são as mulheres negras ou as que tem uma condição social vulnerável. E ainda posso citar a população LGBT perseguida, discriminada e violentada como Dandara e tantas outras.

Marielle ia relembrando todos esses fatos enquanto apresentava Julieta que não parava de cumprimentar todas as que ela conhecia de nome e as que nunca tinha ouvido falar, mortas ao longo de tantos anos na obscuridade, no anonimato por causa da negligência do Estado.

Ali, Julieta fazia parte desse enorme grupo e estava finalmente segura e em paz, no entanto, desejava, bem no íntimo, que na Terra todas pudessem viver , andar, viajar sozinhas ou não, sem medo.

“De que vale a morte dos que lutam, se o passado não diz nada pra você?” (CD Mar de gente -Gabi Buarque)

“E quem não viu há de ver, o outro lado da história vencer, a verdade não tarda a nascer, nossa luta vai prevalecer”…  (CD Mar de gente -Gabi Buarque

Julieta está no céu.

OBS: As Músicas mencionadas aqui são do CD Mar de Gente da minha professora de canto Gabi Buarque @gabibuarquecantora  e podem ser ouvidas no Spotify.

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