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José e Maria: Da Pobreza à Gratidão, uma Lição de Natal, de Renilda Viana

O Natal já estava batendo à porta. No entanto, na casa do menino José, tudo permanecia igual. Nenhum pisca-pisca, nenhum Papai Noel escalando a chaminé e nada de peru aguardando na geladeira. A vizinhança da humilde residência do pequeno José adotara até roupas para os cães da casa, todos com roupinhas vermelhas para usar na celebração. O menino José chegou a desejar ser um cachorro para ter sua roupa nova também. D. Maria, a mãe do menino, não tinha planos e não diferenciava a data das demais do resto do calendário. Mas ele prestava atenção na vizinhança; quanto mais se aproximava o dia da grande festa, mais iluminadas ficavam as casas que avizinhavam a sua. Enquanto jogava bola na frente de casa, observava as famílias descarregando carrinhos de compras, caixas de presentes e muitos sorrisos no rosto. Entrava em casa e indagava à mãe: “Mamãe, o que é o Natal?” D. Maria, pacientemente, como mulher de fé que era, respondia: “Natal, José, é a celebração de aniversário do nascimento de Jesus.” O menino seguia na toada de bom observador. Logo imaginou: se aguardavam a festa de um homem tão importante, sinal de que nem ele nem sua querida mãe seriam convidados. Estava explicado a falta de luzes, compras, presentes e sorrisos.

Todo final de ano transcorria da mesma forma. O menino José cresceu. Com muito sacrifício, D. Maria conseguiu manter o filho estudando. No lugar dos presentes, lhe entregava o material escolar para o novo ano. José nunca cobrou da mãe a vida que seus olhos acompanhavam do lado de fora de casa. Cresceu junto com o sonho de um dia ele e sua mãe serem convidados para a festa de aniversário do menino Jesus, celebrada nos Natais. Com dezoito anos, mudou-se para a capital em busca de melhoria de vida, para ele e D. Maria.

Empregado, deu continuidade aos estudos; sua mãe, apesar do pouco conhecimento, sempre valorizou a educação formal. Ensinava ao filho que um homem sem estudo era um homem vazio, não só de presentes, mas vazio de vida. José, baseado em valores, tornou-se um homem de princípios. Conquistou amigos, fama e recursos. Mesmo longe, transformou a vida de D. Maria. “Meu filho não me deixa faltar nada; hoje ele é doutor”, orgulhava-se diante das vizinhas, para as quais era invisível num passado distante.

Depois de anos, Dr. José decide que é hora de voltar para casa. D. Maria já não é dona do vigor de outrora; carecia de cuidados e atenção do seu único filho. Ele fará companhia e cuidará da saúde da mãe.

O Dr. José chega à cidade para orgulho da mãe e surpresa de todos. É o novo médico que vem para cuidar da saúde do povo. O menino que nunca foi convidado por nenhum vizinho para o aniversário de Jesus é recebido com festa. Traz na bagagem um diploma de doutor, bondade, gratidão, presentes para todos e distribui muitos sorrisos. A vizinhança agradece e diz: “Seu filho é um menino de muita sorte, vizinha Maria.”

D. Maria responde seguramente: “Nunca foi sorte; sempre foi Deus.”

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Uma resposta

  1. A história fala de José, um menino que cresceu vendo o brilho do Natal apenas do lado de fora. Em casa, com a mãe D. Maria, a data não tinha enfeites nem presentes, mas carregava fé e resistência.
    José, muito observador, transforma essa falta de tudo em impulso: estuda, trabalha, muda-se para a capital e se torna médico.
    Anos depois, volta para cuidar da mãe, surpreendendo a vizinhança que antes o ignorava. O conto revela, com ternura, a força do amor materno, da educação e da fé, onde o ponto máximo é a frase marcante de D. Maria: “Nunca foi sorte; sempre foi Deus.”
    Belo texto, Renilda.

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