Transformando histórias nordestinas em patrimônios de leitura

O Passarinheiro: uma crônica da Renilda Viana

— Vamos tomar um sol? — perguntava, certo de sua ação benéfica a seu pássaro de estimação. 

A rotina entre Zé, o passarinheiro, assim era conhecido no bairro, e seu velho pássaro preto era observada por todos que os cercavam. Uma amizade cercada de cuidados: gaiola moderna, feita em alumínio, sementes, água fresca e banho de sol na melhor hora do dia.

Nesta relação, digamos que amistosa, Zé, o passarinheiro, se sentia recompensado por tamanha dedicação com o belo canto do companheiro no romper do dia e ao entardecer. Sentado numa cadeira de balanço, de frente para a rua, observava todo o movimento enquanto apreciava seu lindo pássaro pulando de um poleiro a outro, provavelmente exibindo sua satisfação por ter um dono tão dedicado e uma casa espaçosa. 

Todas as manhãs, Zé pegava a gaiola e sua cadeira de balanço e seguia para a frente da casa para tomarem banho de sol e observar o vai e vem dos passantes. Ele se acomodava na cadeira e pendurava a gaiola na árvore da casa da frente para que seu companheiro também desfrutasse desse momento prazeroso. 

O pássaro preto, o Negão, como o chamava carinhosamente, desandava a cantar freneticamente, parecia querer chamar a atenção dos pássaros que voavam livremente naquela árvore. Mas Zé, o passarinheiro, interpretava seu frenesi como festejo por estar ali perto dos companheiros. Os passantes paravam, admiravam o canto e seguiam seu caminho. Zé inflava de orgulho. 

Assim seguiam. Logo cedo, limpava a gaiola, trocava a água, colocava comida nos comedouros pendurados nas laterais da gaiola, colocava uma folhinha verde e devolvia ao prego na parede da varanda. Enquanto fazia sua primeira refeição, ouvia seu canto em agradecimento. 

Mas o destino viria a pregar uma peça em ambos naquele dia e mudar para sempre a vida dos dois. 

Lá estavam eles tomando banho de sol na frente da casa. Gaiola posta no galho de sempre, a passarinhada indo e vindo por conta do cheiro das sementes frescas da gaiola, o Negão pulando mais que um atleta em dia de prova e Zé com um sorriso de dentadura balançando na sua cadeira para lá e para cá, apreciando a sinfonia instalada na árvore. 

Quando, de repente, um gato que já vinha observando aquela rotina surgiu do telhado e pulou na gaiola. Esta despencou do poleiro improvisado na árvore, com a velocidade gravitacional que uma queda livre exige, dando um grande susto no gatuno e em Zé, o passarinheiro, que se desequilibrou da cadeira e foi ao chão também. Na queda, a porta da gaiola se abriu e o Negão bateu asas para o topo da árvore; o gato fugiu em disparada e virou a esquina, desaparecendo. O coitado do Zé ficou no chão, gritando e esperando por socorro, com o fêmur fraturado. Seis meses depois, após cirurgia e várias sessões de fisioterapia, o passarinheiro volta a sentar na frente de casa, preso numa cadeira de rodas, enquanto a passarinhada faz algazarra na árvore do vizinho. Pardais, bem-te-vis, o Negão, corruíras e muitos outros, afinal, todos se acostumaram a ouvir os lamentos do pássaro preto naquela árvore, agora livre para a alegria de todos, festejavam. 

Zé, o passarinheiro, assim como seu velho amigo Negão, tem a sorte de ter uma bondosa dona, que lhe serve comida fresca, água e muita atenção na sua nova condição.

Renilda Viana é natural de Iraquara, na Chapada Diamantina (BA), formada em Ciências Biológicas com pós-graduação. Professora aposentada, casada e mãe de três filhos, dedica-se à escrita de poesias, contos, crônicas e literatura infantil. Autora de seis livros, seus destaques incluem Crônicas Urbanas, Um Rio que Passou em Minha Vida (cordel), Quem Conta um Conto Aumenta um Ponto (conto) e os infantis Desabafo de Catarina e Angelina – Título 1. Participa de diversas antologias literárias.

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