Cheguei tarde à pensão que havia reservado pela internet. As fotos mostravam um lugar ajeitadinho, uma piscina pequena, mas convidativa — enfim, um recanto agradável.
Um senhor chamado Mark me pediu que esperasse um pouco enquanto terminava de atender outro hóspede. E ainda avisou:
— Cuidado, sente-se bem pra trás, que essa poltrona vira.
Ora, por que deixar uma poltrona que vira na recepção, correndo o risco de derrubar alguém? Já fiquei cabreira.
Pra piorar, comecei a passar mal — glicose baixa. Pedi uma Coca-Cola.
— Ah, senhora, não temos… mas posso comprar no bar ali adiante.
— O senhor pode me arrumar um pouco de açúcar? — perguntei já com as mãos trêmulas.
Ele, meio apavorado, largou o outro hóspede e apareceu com um pote de açúcar e uma colher. Pedi que jogasse direto na minha boca — sim, foi nesse nível. O tal hóspede, solidário, ainda me deu uns amendoins cobertos de chocolate pra ajudar na recuperação.
Passado o sufoco, enfim peguei a chave da minha suíte — térrea, com frigobar, porque eu precisava armazenar a insulina.
Mas que Suíte Master! Aquilo não era pensão, era uma estalagem de beira de estrada, perfeita pra caminhoneiro cansado ou andarilho perdido. Parecia não ver reforma há décadas. Uma cama-box de casal, sem pés, encostada na parede, lençol de forrar puído, jogo de cama desbotado com cerejinhas que um dia já foram fofas. No box da cama que encostava no chão vi as manchas de mofo — “um dia esse colchão deve ter caído na piscina”, pensei.
Sentei, estarrecida, imaginando a quantidade de DNA que devia habitar ali. Cheirei o lençol e os travesseiros como um perdigueiro português — estavam velhos, mas lavados. Ou assim eu quis acreditar.
Abri o frigobar: enferrujado, vazio e barulhento. A porta arrastava no chão. Não teria coragem de guardar comida ali, mas a insulina precisava daquele abrigo precário.
Saí em busca de água. No caminho até a cozinha, encontrei um freezer industrial. Graças a Deus, tinha água — R$ 3,00 a garrafinha — e mais nada.
A miséria mental dos donos era visível: achavam que economizar no básico sustentava o negócio.
Voltei pro quarto e fui tomar banho. Pia mínima, tapetinho nojento, marrom escuro. Agradeci ao meu signo de Virgem por ter colocado um pano de chão na mala — não pisaria naquele troço nem sob tortura.
O box? Sem barra de apoio — o que, diga-se, é Lei. Nada ali era adaptado pra idoso. Tapetes soltos por toda a recepção, perfeitos pra um tombo cinematográfico. Os sofás, sujos, pareciam nunca ter visto uma higienização.
Alguns colegas tentaram achar outra pensão, mas a cidade estava lotada por causa do evento local. Ou seja: condenada a ficar.
Calcei as Havaianas pra não escorregar e liguei o chuveiro. Pouca água e… fervendo. Fechei antes de ser cozida naquela água.
Pensei:— “E agora? O chuveiro é super alto, e eu, com meus 1,52 m, não alcanço a chave seletora”.
Estava pelada, de chinelo, sem condição de chamar ninguém. Mas a criatividade feminina é uma benção: saí do box, do jeito que estava, peguei minha bengala e, com umas batidinhas estratégicas, consegui regular a temperatura pro morninho. Aleluia!
A prateleira do box, claro, era tão alta que o máximo que consegui foi deixar o sabonete — o meu, porque ali eu não confiava em mais nada — na beiradinha.
Depois, limpinha e cheirosa, pedi iFood. Morreria de fome se dependesse daquela cozinha — nem café eles ofereciam. Quase esqueci de atualizar o endereço no aplicativo. Já pensou o motoboy levando meu jantar pra Jacarepaguá – Rio de Janeiro? Mas deu tudo certo. Comi no refeitório mesmo.
Voltei pro quarto e agradeci o cansaço que me fez dormir a noite inteira.
Sonhei com um café da manhã farto, mas a realidade foi um choque: pão bucha, duas frutas (o melão, duro como um coco verde), quadradinhos de queijo de Minas e uma mortadela sinistra. O café e o leite salvaram a refeição. Nos outros dias, apareceu um cuscuz meio triste e um ovo mexido, feito às pressas pela mocinha da cozinha. Só a cara do bolo de milho já dava indício de perigo: seco como Caatinga. Meu amigo, otimista, tentou enfrentar a criatura. Mastigava com coragem, mas a massa parecia expandir na boca. A cada tentativa de engolir, o estômago dele certamente fazia cara de “não fui eu que pedi isso”.
Mais fácil comer no evento do que nessa estalagem, designada por nós de “O Palacete”. E assim seguiram -se alguns dias de sobrevivência.
Deixei a Sandy’s Palace viva, hidratada e ligeiramente traumatizada, com a sensação de ter passado por uma prova de resistência emocional. Percebi que viajar sozinha, às vezes, é lidar com o improvável — e até rir dele.
Nem sempre o conforto está no quarto certo, mas na nossa capacidade de improvisar com dignidade (e uma bengala em mãos).
Porque, às vezes, a piscina “convidativa” das fotos é só um balde azul de esperança. O frigobar? Um portal pro passado. O café da manhã? Um teste de fé. Porque, no fim, o humor pode ser o melhor sabonete: limpa a alma, mesmo num banho de água fervendo.