Transformando histórias nordestinas em patrimônios de leitura

A Poesia da Raiz: ‘Dos dizeres muitas lições’ – O que a poesia da Irene Nunes pode nos ensinar?

A literatura nordestina é um celeiro de saberes, histórias e vozes que pulsam a alma de um povo resiliente e vibrante. Em cada verso, em cada prosa, encontramos a riqueza de uma cultura que se manifesta em seu jeito de falar, de aconselhar, de contar \”causos\”. É nesse universo de autenticidade que o Encantos Nordestinos – Volume 3, uma antologia poética que reúne 71 talentosos poetas e poetisas de diversos cantos do Brasil, se insere como um baú de tesouros. E entre essas joias, brilha intensamente a contribuição da nossa escritora Irene Nunes, com seu poema \”Dos dizeres muitas lições\”.

No cerne da obra de Irene, percebemos de imediato uma celebração profunda da oralidade, da sabedoria popular e das lições passadas de geração em geração. O poema abre com um convite a essa admiração pela fala nordestina:

Aqui, Irene já nos situa no universo cultural do Nordeste, onde a palavra é um instrumento poderoso de transmissão de valores, de ensinamentos e de afetos. O \”cabra que fala\” não é apenas um contador de histórias; ele é um guardião de uma tradição oral rica, capaz de moldar vidas e oferecer perspectivas.

De todos os encantos nordestinos

Sou fã, desde menino

É do jeito do cabra falar:

Dar conselho, fazer sermão

Contar causo ou apelar.

A espinha dorsal do poema, no entanto, reside na reverência à figura materna e aos ensinamentos que dela brotam, transformados em \”lições p’ra vida\”. A autora materializa essa sabedoria ancestral através de ditados populares, que são verdadeiras pérolas da filosofia sertaneja:

Dos dizeres de minha mãe

Faço lições p’ra minha vida

Deve ser por isso que na lida

Tenho pressa até sonhando,

Pois ela me ensinou de pequeno:

“Quem arreia seu cavalo vai andando”

Este provérbio, \”Quem arreia seu cavalo vai andando\”, é um convite à ação, à proatividade, à resiliência diante dos desafios. Não há tempo para esperar; é preciso seguir em frente, mesmo enquanto se prepara. É a tradução poética da garra nordestina, da persistência em meio à \”lida\” diária, uma característica marcante de um povo que construiu sua história com suor e esperança.

Irene Nunes prossegue tecendo versos que abordam a inevitabilidade das mudanças e a importância de não se prender ao passado de forma estática, mas de usá-lo como base para o futuro:

Os tempos mudaram meu filho!

Nada é mais como antes.

Quer ter sucesso um dia

Seja esperto, pegue a estrada

Pois “pé que não anda não leva topada”.

A sabedoria da mãe aqui se revela prática e direta. \”Pé que não anda não leva topada\” é um estímulo à ousadia, à exploração de novos caminhos, à busca ativa por oportunidades. É um conselho que ecoa a urgência de agir, de se movimentar, para não se estagnar e, paradoxalmente, evitar os percalços da inação.

Contudo, a modernidade e a busca pelo sucesso não devem jamais afastar o indivíduo de suas origens. Irene faz um alerta tocante sobre a importância de honrar a trajetória e as raízes:

Em busca do sonho gerado

Orgulhe-se do chão percorrido

Saia de casa, não fuja

Das memórias e das raízes…

Mãe de mim aqui diria:

“Quem ‘gava’ o toco é a coruja”.

O provérbio \”Quem ‘gava’ o toco é a coruja\” nos remete à humildade e à noção de que o valor de algo ou alguém se manifesta por si mesmo, sem a necessidade de exaltação própria. É um ensinamento sobre a autenticidade e a importância de deixar que as ações e a essência falem mais alto. Reforça a ideia de que o sucesso verdadeiro vem acompanhado de reconhecimento e respeito, e não de auto-proclamação. É um chamado para que, mesmo ao \”sair de casa\” em busca de novos horizontes, a memória e as raízes permaneçam como alicerce inabalável.

O poema \”Dos dizeres muitas lições\” é, portanto, um microcosmo da alma nordestina, onde a tradição e a modernidade se encontram, e onde a sabedoria dos mais velhos é o mapa para as novas gerações. A obra de Irene Nunes, com sua voz carregada de autenticidade, engrandece o Encantos Nordestinos – Volume 3.

Esta antologia, gestada com paixão e nordestinidade é uma celebração da identidade cultural do Nordeste. Irene Nunes, busca dar visibilidade aos saberes e elementos que representam tão fortemente essa região.

Convidamos você a se deixar levar por essa jornada literária, a sentir o ritmo da sanfona de Luiz Gonzaga e a saborear cada \”lição\” que os Encantos Nordestinos têm a oferecer, mas sobretudo a obra da Irene Nunes, baiana de Guajeru_BA.

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