Temos a estranha mania de batizar a amizade no fogo. Dizemos que “amigo de verdade é aquele que aparece na hora do aperto”. É uma frase bonita, heróica até, mas carrega uma armadilha: a de que a amizade precisa da tragédia para existir.
A verdadeira raridade, como bem posso pontuar, não é quem segura a sua mão no enterro, mas quem a segura numa terça-feira comum, sem porquê. É a escuta sem cronômetro. Hoje, quase todo mundo ouve já preparando a resposta, ou pior, ouve calculando como aquela informação se encaixa na própria vida. O amigo raro é aquele que pratica a “presença gratuita”. Ele não está ali porque você quebrou; ele está ali porque você existe.
Há uma diferença abissal entre o contato de conveniência e a continuidade. O contato busca algo; a continuidade cultiva. É o hábito de saber do outro quando o céu está azul e os boletos estão pagos. É a lealdade das pequenas consistências: o café que se repete, a piada interna que sobrevive aos anos, o silêncio que não incomoda.
No fim das contas, a amizade não deveria ser um extintor de incêndio, pendurado na parede para emergências. Ela deveria ser a luz da varanda: fica acesa só para dizer que, naquela casa, mora alguém que te espera, independentemente do tempo que faz lá fora.
4 respostas
Que lindo, Léo, muito verdadeiro seu conto. Ser simplesmente um “To Aqui” sem cobranças ou explicações. Quase uma telepatia.
Nem mais…
Parabéns! Só conhecemos os amigos nas horas difíceis.
Adorei a metáfora final. Realmente a amizade é a luz que nos acompanha mesmo a distância. Parabéns!