A literatura tem o poder de antecipar ou traduzir com precisão cirúrgica as angústias do espírito humano. No poema “O Homem como um rio”, o escritor sertaniense Mozart Lopes de Siqueira nos oferece um espelho incômodo, mas profundamente necessário. Ao versar sobre a condição humana, o autor desconstrói a ilusão de liberdade moderna, revelando um sujeito encurralado por suas próprias estruturas sociais, físicas e existenciais.
É uma obra que, sob a crueza de suas palavras, grita por libertação. O faz através da metáfora da Imobilidade.: O poema constrói sua força motriz a partir de oposições semânticas brutais. O rio, que na tradição literária simboliza o fluxo contínuo, a fluidez e a impermanência, surge aqui subvertido: está “encaixotado” e “em seu aquário”. Siqueira destitui o rio de sua natureza selvagem. Da mesma forma, o fruto — promessa de vida e nutrição — aparece “empacotado”.Essa escolha imagética serve como um diagnóstico preciso da desumanização.
O homem contemporâneo, inserido na engrenagem mecânica do cotidiano (na escola, no clube, na oficina), perde sua individualidade. Ele deixa de ser um agente de sua própria história para se tornar um joguete do espaço que ocupa. O Homem-Número e a Rotina Desumanizante é Um dos pontos mais altos e dolorosos da crítica de Siqueira, que reside na redução do ser à estatística. O indivíduo na praça, na multidão ou no transporte público não passa de “um simples número perdido / No vai e vem das ruas”.A repetição obsessiva do termo “emparedado” funciona como um eco claustrofóbico. O autor nos lembra que as paredes que nos cercam não são feitas apenas de concreto, mas também de tempo e de carência:
“…A pastagem dos dias mal vividos,
A pastagem das noites mal dormidas
A pastagem da fome..”
O uso da palavra “pasto” e “pastagem” rebaixa a existência humana a uma condição puramente animal de subsistência forçada. A incerteza do pão, da casa e da vida contrasta violentamente com a rigidez das rotinas impostas pela sociedade industrial e urbana. O corpo, resumido em sua brevidade, torna-se a primeira e a última cela do indivíduo.
A Janela do Sonho aparece no poema , revelando o Amarelo e o Cor-de-Rosa , como alívios para os olhos e a alma , afinal, já se disse que ” Os olhos são a janela da alma” . Contudo, a poesia de Mozart Lopes de Siqueira não se encerra no niilismo absoluto. Há, no terço final do poema, uma transição cromática e atmosférica que serve como um respiro lírico. Da escuridão da “noite sem clarões” e do cinza das ruas, o poema se abre para o amarelo vivo e o cor-de-rosa. Essas cores representam a antítese do enclausuramento:As tardes domingueiras: O único momento de trégua na engrenagem produtiva.O amarelo claro e vivo: A busca pela luz, pelo calor e pela iluminação espiritual.A paz sonora e cor-de-rosa: A dimensão do sonho, da utopia e da beleza pura.Esse vislumbre através da “vidraça dos ônibus” mostra que a sensibilidade humana, embora sufocada, resiste. O desejo de transcendência e de paz permanece vivo, mesmo que camuflado na rotina de um trabalhador anônimo.
Por fim. “O Homem como um rio” é uma obra-prima da poesia reflexiva regionalista e universal de Pernambuco. Mozart Lopes de Siqueira, Poeta de Sertânia, que residiu no Recife , com a bagagem de quem transita entre o rigor do Direito e a sensibilidade das Letras, constrói um artigo de opinião em forma de verso sobre o seu tempo — que se estende perfeitamente ao nosso. Em um mundo cada vez mais vigiado, algoritmizado e veloz, a leitura deste poema nos obriga a questionar: até que ponto quebramos as paredes de nossas caixas cotidianas, ou apenas mudamos o tamanho do nosso aquário? A resposta, sugere o poeta, está na nossa capacidade de ainda enxergar o amarelo do sol através do vidro embaçado da rotina.
Josessandro Andrade é Artista da Palavra e educador .