Transformando histórias nordestinas em patrimônios de leitura

Um Amor de Múmia: O Encontro Inesquecível com uma Musa do Egito Antigo, de Luís Bacelar Vidal

Naquela manhã que cheguei a Luxor, vindo da cidade do Cairo, tudo me parecia mágico, porém eu não sabia o porquê. Eu sempre tive uma grande atração pela história do Egito. Suas rainhas, seus faraós e seus suntuosos palácios e templos, sem falar nas pirâmides e no rio Nilo. Moisés navegando rio Nilo abaixo em sua cestinha.

Logo que cheguei no aeroporto fui levado para um navio, no qual faria um grandioso percurso pelo rio Nilo, desde a cidade de Luxor, que antigamente se chamava Tebas, até a cidade de Assuã. Quando entrei no navio, logo me chamou a atenção uma múmia exposta em um caixão com tampa de vidro bem na entrada para embarque. Tinha uma breve descrição em inglês que dava para perceber que se tratava de uma mulher, entretanto aquela pele ressecada não traduzia como seria esta mulher, quem sabe teria sido uma mulher bonita.

Depois de perfeitamente instalado em meu apartamento, luxuoso, diga-se de passagem, com uma bela varanda debruçada para o grande rio, deitei-me um pouco na cama, uma cama de casal, para descansar da viagem e receber os bons ventos vindos do grande rio. Não consegui dormir, nem um pouquinho, porque logo me vinha a lembrança da múmia, contudo fiquei todo o tempo num estado de transição entre sono e vigília. Um estado assim de sono superficial.

Foi assim que eu comecei a projetar detalhes da múmia em minha mente. Como seria aquela múmia quando mulher, quando viva. Não sei porque eu tinha a necessidade de formar na minha mente um corpo humano, e fui assim montando as peças como se fosse um quebra cabeça.

Morena, sim, uma mulher morena, de 1,70 metros, tinha a cor de cobre e uma pele aveludada de pessoa que não se expunha ao sol e tinha cuidados pessoais. Olhos castanhos e lábios grossos compondo uma boca pequena. Nariz afilado e sobrancelhas muito bem delineadas. De rosto retangular, cobriam-lhe a cabeça longos cabelos castanhos que chegavam a abaixo dos ombros e sobre eles uma coroa de cor amarela, cravejada com pedras preciosas de cor verde. Estava ornamentada com grandes pingentes na delicada orelha e vestia um vestido de cor creme ajustado com faixas brilhantes de cor amarela que também levava detalhes de cor verde.

Esta figura feminina foi construída com o meu pensamento elevado ao passado. Teria sido uma rainha? Como saber? Não, não fora rainha, se o fosse ali não estaria exibindo-se ressecada para aquele mundo de turistas.

Uma das faixas, elaboradas com um pano de melhor textura, fazia com que seu vestido ficasse rente ao corpo esguio, de onde despontava altaneiro os dois seios de tamanho médio. Da cintura, levemente desnuda, para baixo, percebia-se que a fina veste também coladinha ao corpo revelava as belas coxas que deveria possuir a múmia, ressuscitada em meu pensamento e transformada em uma linda mulher.

Em tempo, informo que tal mulher egípcia, com todos os caracteres de rainha, carregava em seus braços belas pulseiras de ouro cravejadas com pedras verdes. Seria aquela a múmia da rainha Cleópatra? Não, não poderia ser, a múmia de uma rainha não estaria ali, como peça de museu, e sim muito bem trancafiada em uma pirâmide ou no vale dos reis, como todos os faraós egípcios; e depois, ela tinha uma pele clara, e ultimamente andam dizendo que a rainha Cleópatra era negra. Mas será verdade? Eu não acredito. Talvez seja narrativa da cultura woke. Pelo que posso compreender, com base nas características geográficas de cada povo, a rainha Cleópatra deveria ser uma mulher assim, cor de cobre e cabelos lisos como todos os egípcios, de imediato afastei de mim a belíssima figura de Elisabeth Taylor, um excesso de beleza imposto por Hollywood e também a de negritude pregada pela cultura woke.

Eu gostava da minha mentalização, eu a via na minha vigília, quase um sonho, sabia que estava acordado, mas gostava da companhia. Sentia seu cheiro suave, de canela e mirra, que me deixava muito confortável entre sonâmbulo e acordado.

De repente bateram na porta de meu camarote, eu percebi a batida ao longe, bateram mais forte, e mais forte ainda. Despertei contrariado sem saber aonde estava. Era o guia que me convidava para sair, iriamos visitar os templos de Luxor e Karnac.

Logo me apressei a vestir a roupa, tomei de uma garrafa de cerveja long neck no frigobar e fui em busca do guia que me esperava na saída do navio. Porém, alguma força fez com que eu fosse, mais uma vez, observar a múmia. Lá estava ela, era como essas figuras que possuem duas aparências, que nos causa uma ilusão de ótica, em um olhar eu via a múmia de pele ressecada, logo olhava-a de novo e via uma linda mulher conforme imaginara em minha deliciosa vigília.

Fiquei parado e pasmado nessa observação até que o guia turístico se aproximou, tomou-me gentilmente no braço e disse:

– Vamos senhor? Não podemos nos atrasar, temos muita coisa para visitar.

Voltei a realidade, agradeci, desembarcamos e pegamos uma charrete com destino ao templo de Luxor.

Percorremos as ruas cheias de outras charretes, conversava animadamente com o guia, que em um espanhol um tanto precário me contava a história da cidade. Quando o guia pronunciava Luxor, logo uma voz feminina muito aveludada soprava em meu ouvido – Tebas, é Tebas, ouviu?

Eu sabia que era Tebas, fui bom aluno de história. Mas não podia entender porque aquela voz tão doce insistia em me explicar. De onde viria? Quando reparei no banco ao meu lado, estava mais uma vez a figura que eu houvera concebido em meu momento de vigília quando tentava descansar. Ela era, sim. Logo percebi que eu, em momento nenhum, havia concebido somente em minha cabeça uma egípcia que viveu no Egito antigo, era de fato um fantasma que me acompanhava. Um fantasma maravilhoso, bonita, educada e inteligente. Na falta de outra companhia feminina de verdade, de carne e osso, e sexo, travamos uma maravilhosa amizade.

Visitamos os templos de Luxor e Karnac. Eu ouvia as explicações do guia turístico e estava sempre ligado para uma melhor observação do fantasma que viveu a história real. Quando retornávamos o fantasma sugeriu que eu fizesse o passeio de balão e que visitasse o vale dos reis.

Voltamos para o navio, eu estava feliz, louco para ficar sozinho com meu lindo e amável fantasma. E assim foi, após desfrutar de um excelente jantar da culinária árabe, fui para o meu quarto, o navio zarparia no dia seguinte com destino cidade de Esna.

Deitei-me na cama, exausto, e logo senti um corpo que se aconchegava junto a mim, como sempre cheirava a canela e mirra, logo o reconheci. Passou, com sua voz melodiosa e doce, a me contar histórias e mais histórias do velho Egito. Falou-me de Cleópatra, Júlio Cezar e Marco Antônio. Contou-me o incêndio da biblioteca de Alexandria, ela lá se encontrava naquele doloroso dia.

Perguntei-lhe seu nome, não me quis revelar.

Nome não importa – disse-me ela e complementou – posso ser Cleópatra, Nefertite ou Tawosret. Você também já foi egípcio alguma vez, posso lhe reconhecer.
Eu estremeci assustado, mas logo peguei no sono. Acho que dormimos juntinhos, pois quando acordava sempre me parecia que havia alguém junto a mim.


Para não cansar os leitores com detalhes agora desnecessários, findo a minha narrativa com a conclusão de que foram cinco dias e quatro noites surpreendentemente prazerosos. Em Edfu visitamos o templo de Horus, em Kom Ombo exploramos o templo de Sobek e Haroeris, com suas belas paredes esculpidas e em Aswan a Ilha Elefantina, a barragem e o templo de Philae. Até no reduto dos núbios em Aswan ela esteve comigo, não de bom grado.


Já a tinha como minha companheira, fazíamos tudo que um casal pode fazer, só não fazia sexo infelizmente, tive medo de tratar do assunto com um fantasma e ser mal compreendido. Quando embarquei no aeroporto de Assuam com destino a Telavive, esperava que ela me acompanhasse, eu a queria para sempre, mais eis que desapareceu sem dizer ao menos um adeus. Sinto saudades até hoje de meu querido fantasma que nem o nome eu sei.
São memórias de minhas viagens solitárias, acreditem se quiser.

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