Transformando histórias nordestinas em patrimônios de leitura

A fina flor da hipocrisia – De Luís Bacelar Vidal

Na vida a gente passa por situações surpreendentes. Eu já havia perdido amigos por causa de discussões políticas, imaginem! Já não sei bem se eram efetivamente amigos, talvez fossem daqueles amigos que só sentem a nossa amizade quando concordamos em absoluto com suas ideias, sejam políticas ou não. Muitas vezes, para não perder o amigo, temos que ficar calados, aquela concordância tácita e amuada. Porém, uma vez expressada a nossa discordância, tudo se arrebenta, os cacos da amizade são atirados nas ruas, nos rios ou nos mares como costumam fazer com os objetos imprestáveis.

Brigar por dinheiro, no entanto, é bastante plausível, dinheiro é dinheiro, é quem nos faz ser aceito na sociedade, dinheiro compra voto, e outras milongas mais. Isto quando é dinheiro muito, uma grande importância. Mas, e quando é pouco dinheiro? Uma merreca? 

Pois fica fácil de resolver, deixa-se para lá, porque brigar, criar uma inimizade, por causa de uma merreca? Eu acho que todos concordam comigo, porém nem sempre eu mesmo concordo. Às vezes até deixo passar, mas nem sempre.

Eu nem queria contar este fato, mas já que falo do assunto me resignarei em expulsá-lo de mim, para sempre, sem aumentar ou diminuir um ponto.

Certa vez, vendendo livros a supostos amigos, e colegas, alguns deles me compraram. Uns compraram um, outros dois. Outros perguntaram se era de graça, e como não era, não quiseram nem ler a sinopse. Naquela época eu havia escrito dois romances: Éramos três e Minha amada assassina.

Uma dessas pessoas de nome Hórus, sujeito alto e magro, branco de cabelos louros, olhos azuis e nariz suíço, comprou-me os dois. Eu fiquei meio intrigado porque não esperava, geralmente as pessoas compravam um dos dois. Ele logo se apossou de dois e o tempo foi transcorrendo sem que me pagasse.

Conversou-se, brincou-se, e no final do dia todos já me haviam pago as importâncias correspondentes, e ele não. Como eu precisava voltar para casa antes que o grupo se dispersasse, coloquei em uma folha de papel o número de meu CPF, que é a chave de meu Pix, e a ele entreguei gentilmente recomendando.

– Já estou saindo Hórus, eis aqui minha chave Pix.

Fui para casa brincar com meus netos Arthur e Yasmin, estava com saudade deles. Esperava, como se espera uma mulher amada, e muito amada mesmo, que o aparelho celular fizesse aquele costumeiro ruido de alerta para me avisar o recebimento do Pix. Afinal de contas eu escrevo por prazer, porém o retorno financeiro merece estar presente para que outros gastos literários possam ser admitidos. Até porque, para pessoas de baixo poder aquisitivo e interessadas por literatura, eu os vendo por um preço menor ou os dou gratuitamente. 

O Pix não veio. Eu esperei desolado por meses e meses, perguntei a outros membros do grupo pelo contato do querido colega, e não me quiseram informar, até que no sétimo mês depois deste fatídico acontecimento, arrumando velhas cadernetas, descobri que eu tinha o número de telefone celular do leitor desmemoriado, ou desonesto.

Como não podia deixar de acontecer com uma pessoa com o meu temperamento dócil, comuniquei-lhe o fato através do WhatsApp que ele estava me devendo sessenta reais, relativo à aquisição de dois livros seis meses atrás.

Ele se desculpou com bastante veemência e disse-me haver esquecido. Eu fiquei esperando, da mesma forma que antes, que diante da minha aguda lembrança, ele de imediato fizesse a devida transferência. Mas não, passou-se mais de vinte quatro horas e ele, o amado Pix, não apareceu na tela do meu aparelho celular para consolar o meu ego.

Então, como um sujeito muito conciliador que sou, Deus é testemunha, lhe propus que dividisse o débito de sessenta reais em três prestações mensais, de vinte reais cada uma, vencíveis em trinta, sessenta e noventa dias, afinal todos nós temos nossas dificuldades financeiras.

Pasmem senhores, nada aconteceu. Agora eu pergunto. Como é que um sujeito branco, de cabelos loiros e olhos azuis, se permite praticar um ato desses, se fosse pardo, logo teceriam comentários criminosos.

Pois foi então que eu me vi tomado de imensa raiva. Não foi aquela raiva dos avarentos, daqueles que comem acarajé sem camarão para gastar menos, ou que bebem cerveja barata. Foi a raiva da honestidade, a raiva da ética, a raiva da empatia, a raiva da moral. Também não para a raiva da generosidade, não preciso que sejam generosos para comprar meus livros.

Foi então, só então, que eu perdi as estribeiras. Deixei de pisar nas beiras e com o punhal em riste o ataquei, profundo. Disse-lhe o que devia dizer. Para louvar a honestidade, a ética, a moral, contei-lhe, em segredo, como pede a boa ética, que ele não tinha esses atributos tão desejados por muitos e, para encerrar, chamei-o de hipócrita.

Foi então que a hipocrisia aflorou do grupo, coisa que eu já previa. Quase todos ficaram ao lado do hipócrita. 

Mas algum leitor deve estar se perguntando, e no final ele pagou ou não? 

Sim, recebi emocionado um Pix de sessenta reais, emocionado como o ato de despir pela primeira vez uma mulher difícil.

Luís Bacelar nasceu e reside em Salvador (BA). Bacharel em Ciências Contábeis pela UFBA, é Auditor Fiscal da Receita Federal e Perito Judicial. Autor dos romances Éramos Três, Minha Amada Assassina, A Mártir do Labor e O Caixeiro que Falava Inglês, entre outros. Publicou também o livro de contos Outros Contos da Vida e o livro de poemas Goiabada com Queijo e Vinho.

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Uma resposta

  1. Luis, seu texto é envolvente e bem-humorado, típico do Luis Bacelar que eu vejo nos livros. Aqui tratando a desonestidade e a falta de caráter na convivência diária, em situações comuns e a hipocrisia entre os amigos.. O final bem irônico, já com seus 60,00 na conta, “emocionado…… uma mulher difícil”, adorei.

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