Transformando histórias nordestinas em patrimônios de leitura

Ekaterina: Uma História de amor, música e despedidas – Luís Bacelar Vidal

Faz tempo que me aconteceu a história que lhes vou contar. Eu ainda era um jovem, devia ter uns dezoito anos de idade, era vocalista de um pequeno conjunto musical. Àquela época estava em moda a jovem guarda, mas além do repertório da jovem guarda nos cantávamos também a bossa nova e MPB. 

Lembro-me como se fosse hoje. Fomos contratados para tocar e cantar todas as sextas-feiras em um barzinho intimista que ainda existia no bairro da Barra. Ganharíamos um bom cachê. 

Em belo dia de verão, mal o sol se preparava para esconder-se por trás do imponente mar, lá estávamos. Eu um jovem solitário em busca de minha alma gêmea, logo que cheguei encostei-me a murada da praia para apreciar a majestosa despedida do sol.

Quando entramos para o happy hour, a casa já estava cheia. Começamos a cantar, cantávamos belas músicas: lembro-me que dei início, como sempre fazia, com a música Eu e a brisa, de Johnny Alf. Eu gostava desta música porque ela era muito de mim. 

Ah, se a juventude que esta brisa canta

Ficasse aqui comigo mais um pouco

Eu poderia esquecer a dor

De ser tão só pra ser um sonho

Eu sempre colocava muita emoção quando cantava a frase, “de ser um só pra ser um sonho” e, neste dia especialmente, após a bela despedida do sol, fiquei um tanto mais romântico e me questionava. Porque eu era tão só?

Logo que comecei a cantar percebi uma mesa com três pessoas. Um sujeito com uma grande barba um pouco desalinhada que parecia ser namorado, noivo, ou qualquer coisa que o valha, de uma mulher bonita, de cor mulata, que vestia uma blusa vermelha e usava muitos adereços. A outra pessoa da mesa era uma mulher, mais jovem, branquinha, que aparentava seus vinte a vinte e dois anos de idade. Tinha olhos azuis, brilhantes, qual duas pedras preciosas, duas turmalinas, e cabelos longos, penteados em tranças e seguros no cocuruto da cabeça.

Logo na primeira canção que fiz, “Eu e a brisa”, percebi a especial atenção dela por mim, quando terminei ela bateu entusiásticas palmas, mais entusiasmada que as outras pessoas, e um sorriso de estar muito feliz num paraíso. Outras músicas cantei e ela parecia abobalhada me contemplando. Então cantei Tatuagem, de Chico Buarque, olhando bem nos olhinhos dela.

Quero ficar no teu corpo feito tatuagem

Que é pra te dar coragem

Pra seguir viagem

Quando a noite vem…

    E assim passei a noite, cantando para ela, quem não se empolgaria com um belo sorriso feminino, mesmo que não seja ele autêntico? 

Quando fiz um intervalo ela me seguia tanto com os brilhantes olhinhos de turmalina, iluminando os meus passos, que acabei por ir cumprimentá-la.

– Boa noite! Está gostando do repertório? 

– Sim, você canta muito bem, e põe muita emoção em seu canto. Estou adorando.

Tinha um sotaque um pouco diferente do nosso sotaque de baianos. Perguntei-lhe de onde era.

– Sou da União Soviética, mais precisamente – fez uma pausa – da Rússia.

O homem falou que eu podia sentar-me. Conversei um pouco com eles, a atenção totalmente dirigida para Ekaterina, este era o nome daquela bela mulher. Se pudesse ficava o tempo todo ali, junto a ela, conversando. Definitivamente: estava enfeitiçado. Quando voltei a cantar, estava mais emocionado ainda, estava apaixonado, sorria feito bobo, para tudo e para todos. Fiquei procurando em meu repertório uma música que eu pudesse fazer especialmente para Ekaterina. 

Tomei uma dose de uísque duplo, com bastante gelo, e logo veio a minha memória a música de Garoto, cuja letra assim diz:

Teus olhos

São duas contas pequeninas

Qual duas pedras preciosas

Que brilham mais que o luar

São eles

Guias do meu caminho escuro

Cheio de desilusão

E dor

Quisera que eles soubessem

O que representam pra mim

Fazendo

Que eu prossiga feliz

Aí, amor

A luz dos teus olhos

  Cantei, apaixonado. A dose dupla de uísque me duplicou a emoção, cantei olhando nos olhos dela, para mim não existia mais pessoas naquele recinto, a mim só ela interessava, eu só tinha olhos para Ekaterina.

Mesmo assim fui estrepitosamente aplaudido por todos. Todos gostaram de minha apresentação e estavam muito felizes. Foi uma noite de astro para mim. Quando terminei o meu trabalho me juntei a eles. Na saída do barzinho o casal se despediu e ficamos nós, eu e Ekaterina, conversamos bastante em frente à praia, até que os primeiros raios de sol se projetaram sobre as águas do mar, dando um toque de harmonia e paz a natureza, e a nós também.  

Outros encontros tive com aquela deusa de olhos azuis. Ela me contou que estava no Brasil estudando as possíveis modificações da língua portuguesa original. Acentuou que todas as línguas originais tendem a modificar-se bastante quando se entrelaçam com outros povos, com outras línguas. Aqui ela estudava a influência das línguas indígenas, africanas e europeias no português de Portugal. 

Foram muitos anos de amor, um amor desregrado, sedução e companheirismo. É possível que Ekaterina fosse minha alma gêmea, eu sempre pensava; por muitos anos nos amamos loucamente, percorremos felizes quase todo o Brasil. Viajávamos de ônibus, não tínhamos tanto dinheiro, o suficiente para viajar de avião. 

Ekaterina era muito detalhista em suas questões que apresentava aos guias turísticos e às demais pessoas a quem formulava perguntas. Anotava tudo com muita preocupação, era como se estivesse realizando um trabalho muito importante.

Cantei por diversos bares desse imenso Brasil, ela ficava sempre sentada em uma mesinha, solvendo uma cuba libre, e me admirando com seus dois preciosos olhinhos coloridos.

Em um dia de inverno, uns três anos após nosso encontro, eu voltaria a cantar naquele barzinho do bairro da Barra. Cheguei feliz, não era mais um solitário, e nesse dia em razão das chuvas não teve um pôr do sol visível e admirável.

Entrei no barzinho para cantar, alguns músicos do conjunto, quase todos, já não eram os mesmos. Era o dia de aniversário de Ekaterina, iria fazer uma surpresa para ela, havia feito uma maravilhosa seleção de músicas para homenageá-la: pelo seu aniversário e pelos nossos três anos de vida em comunhão.   

Comecei a cantar triste nesta noite, alguma coisa me apertava o coração, era como se fosse um presságio. Cantei, cantei, olhando para a mesinha vazia à minha frente. Ekaterina tinha ficado em casa, garantiu-me que viria logo que melhorasse de uma dor de cabeça. Porém não veio, se fora do Brasil sem se quer me dizer um adeus, sem me dar o último beijo.

Quando cheguei em casa em um bilhete ela lamentava a repentina partida. “Meu amorzinho, foi maravilhoso viver todo esse tempo com você, quem sabe ainda volto um dia, se você me aceitar. Neste momento, entretanto, tenho que prestar satisfações ao meu governo.” Só depois de ler esta frase eu vim perceber que Ekaterina era uma espiã e não uma pesquisadora como me fizera crer.

Viajara para a Rússia sem deixar endereço ou qualquer pista de como encontrá-la. 

Passei a cantar “Amigo é pra essas coisas” e outras canções que falassem de minha desventura. 

Um dia aprendi a cantar Desalento, de Chico Buarque, eu cantava essa canção como uma oração, uma súplica, para que ela voltasse para mim.

Sim, vai e diz

Diz assim

Que eu chorei

Que eu morri

De arrependimento

Que o meu desalento

Já não tem mais fim

Vai e diz

Diz assim

Como sou

Infeliz

No meu descaminho

Diz que estou sozinho

E sem saber de mim

Diz que eu estive por pouco

Diz a ela que estou louco

Pra perdoar

Que seja lá como for

Por amor

Por favor

É pra ela voltar

Sim …

Nesta noite eu não me contive, a minha emoção chegou ao auge, chorei calado, ninguém precisava saber de meu infortúnio, mas todos viram, todos sentiram. Ninguém riu. Recebi calorosas e compreensivas palmas, alguns clientes assíduos já imaginavam o meu sofrimento. Depois deste dia resolvi não mais cantar em público, canto ainda hoje, recolhido em minha casa, as canções que me tocam profundamente o coração, e que ao mesmo tempo aliviam a minha saudade de Ekaterina.

Hoje, com setenta e sete anos de idade, momento em que lhes confesso tão desenfreada e única paixão da minha vida, todas as sextas feiras, quer chova quer faça sol, eu ainda passo de mansinho, como quem não quer nada, pela porta do barzinho, às vezes me posto do outro lado, olhando as ondas morrerem na areia branca da praia, ainda atento, os olhos ávidos, a ver se Ekaterina entra no bar.

Luís Bacelar nasceu e reside em Salvador (BA). Bacharel em Ciências Contábeis pela UFBA, é Auditor Fiscal da Receita Federal e Perito Judicial. Autor dos romances Éramos Três, Minha Amada Assassina, A Mártir do Labor e O Caixeiro que Falava Inglês, entre outros. Publicou também o livro de contos Outros Contos da Vida e o livro de poemas Goiabada com Queijo e Vinho.

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2 respostas

  1. Que linda história!!! O amor me encanta. Fascina. Sou movida a paixão mesmo que dure pouco.

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