Transformando histórias nordestinas em patrimônios de leitura

UMA PENSÃO SINISTRA, um conto do Léo Pajeú

Após um voo demorado cheguei tarde na pensão que tinha reservado pela internet. Passava de meia noite. No início, ninguém chegava para me atender. Com um pouco de insistência e contato pelo WhatsApp eu consegui uma senha —fechadura eletrônica—para entrar. Cansado e com sono, acabei não me importando, mas aquela noite não parecia comum.

          O quarto da pensão que me foi liberado tinha acesso por fora, na área dos fundos, através de uma escada de ferro espiral que já apresentava algum desgaste, com ferrugem e degraus desalinhados.

         Olhei em volta, havia um silêncio das coisas, do vento, animais noturnos, mas um ar condicionado afetava a fachada, a estética e a estrutura elétrica da pensão, fazendo muito barulho. Indicava problemas no motor do ventilador ou compressor, peça solta, desbalanceamento da hélice, acúmulo de poeira ou instalação inadequada. Observei e subi a escada com dificuldade, olhando as sombras das coisas ao meu redor; já era bem tarde da noite e algo me chamou a atenção. Uma sombra se moveu… ou era apenas intriga de minha imaginação?

          A pessoa, o rapaz que me atendeu, não se expressou direito, não me deu atenção e sumiu por algum canto do lugar. Fiquei um tempo ali no meio daquela escada, observando tudo e segurando uma mala, uma mochila e a pequena chave do quarto externo da pensão.

         Evitei por um instante dar prosseguimento na subida da escada para ver se havia algum sinal de animal, gato, rato ou mesmo uma pessoa, porém, apenas sombras diversas se formavam no ambiente. Após alguns segundos continuei a subir o restante dos doze degraus da escada espiral desgastada e enferrujada.

          Com cuidado, após deixar minha mala em um pequeno canto reservado o qual dava acesso à porta, comecei a abri-la. A chave não entrava corretamente na fechadura, parecia torta ou a fechadura apresentava algum defeito. Tentei até conseguir e finalmente entrar.

         A luz do quarto, que acendi com dificuldade, era muito fraca; coloquei minha mala próximo a uma grande janela de vidro temperado, que se abria pelo meio; deixei minha mochila no chão e fui acender a luz do banheiro para ver se aumentava a claridade do quarto da pensão.

         No quarto meio sombrio, havia uma cama de casal mal conservada e uma beliche seguindo a mesma qualidade da cama. Como já era tarde, estava cansado e precisava de um banho, tirei a roupa e fui para o banheiro.  A pia de plástico, o espelho e o espaço que havia, se igualava a um banheiro de criança ou um daqueles que as empresas demonstram como modelo de vendas em seus projetos de arquitetura.

          Ao observar os cantos, tetos e objetos do quarto, notei que as suas texturas e cores pareciam mudar, ganhar uma sombreada envelhecida, desgastadas pelo tempo, algo como se as imagens projetadas nos meus olhos mudassem para uma tonalidade de madeira envelhecida, mofada por água ou falta de manutenção, com manchas em alguns cantos e defeitos de alvenaria e acabamento.

          Após um banho difícil e apertado naquele banheiro pequeno, pouca água no chuveiro e um sabonete que parecia ter vencido há muito tempo, comecei a me enxugar diante da janela de vidro e sua cortina opaca. Naquele instante tudo tinha um ar tão estranho, que me senti incomodado, vigiado, mas não notava a presença, ou manifestação de alguém por perto.

          Reparei que o quarto estava sinistro, suas cores envelhecidas, manchas e riscos apresentavam mais nitidez, como se estivessem em um passado muito antigo, onde o tempo o fizesse ganhar forma de abandono e descuido. Aquela situação me fazia pensar e questionar minha sanidade mental. Estaria criando tudo aquilo pelo cansaço, pelo medo ou realmente algo estava acontecendo sob meus olhos e eu não despertava para aquela realidade que me atormentava?

         Outra observação que me deixou perplexo foram os cheiros que o quarto apresentava. Um odor de mofo, bolor, lixo, suor e até de sangue. Eram odores causados pela proliferação de micróbios em ambientes úmidos e sujos e pela decomposição de matérias orgânicas. O cheiro de sangue me intrigou. Aqueles lençóis e travesseiros carregavam o cheiro de algo terrível que poderia ter acontecido ali.

          Nesse momento da noite não tinha alternativa, deveria tentar descansar, dormir e recuperar meus ânimos, naquele quarto sombrio.

         O cansaço me fez adormecer, não era um sono profundo, pois qualquer movimento ou barulho me fazia abrir os olhos. Escutei uns passos suaves de alguém, pois em baixo, havia acesso a uma cozinha miúda e mal cuidada. Uma pequena piscina com aspecto sujo ficava próxima à escada de ferro para meu quarto.

          Fiquei atônito e aguardando o desenrolar daqueles passos, que não eram do rapaz que me atendeu, pois eram rápidos e sem jeito, tipo do apressado que não quer fazer as coisas direito. E, como se eu estivesse vendo, a pessoa parou diante da escada em espiral, olhou para sua altura na escuridão da noite que se seguia, e começou a subir. Eu, mentalmente com medo, contei os doze passos que lenta e suavemente, traziam um temor sinistro.

          Diante da cena que eu imaginava e da pessoa que subia a escada, povoava em minha mente um terrível mistério. O medo foi tomando conta de meu ser ali, sozinho naquele quarto, sem poder pedir ajuda, um cenário de filme de terror.  Fiquei estático e com os olhos em pavor, aguardando alguém abrir a porta, cuja chave estava emperrada e não a fechava.

          Vagarosamente, a porta foi se abrindo, revelando em meia luz, a imagem de uma mulher encoberta com uma manta velha e em trapos. Seus cabelos longos, sujos e mal cuidados tentavam esconder os olhos grandes, frios e profundos, que me fitavam com algum tipo de poder. Fiquei paralisado diante daquela visão, todos os cheiros do quarto se intensificaram, como se aquela mulher trouxesse consigo o odor de um caixão recém enterrado em algum cemitério próximo.

          O pavor foi tão intenso, que adormeci, não acompanhei o desenrolar do que aconteceu depois da aparição da mulher misteriosa na porta do quarto da pensão sinistra.

          Nos primeiros minutos do amanhecer, escutei ao longe o canto de um galo garnisé. Vagarosamente fui recobrando meus sentidos, enquanto o galo repetia seu canto insistentemente.

          Notei que a cama estava toda desarrumada: roupas, toalhas e objetos da mala estavam espalhados pelos cantos e, o chuveiro ligado com sua pouca água, demonstrava que alguém o havia usado e esquecido de o desligar.

         Sem perder tempo, vesti minhas roupas, arrumei minhas coisas de volta na mala e na mochila, encostei a porta do quarto da pensão, — pois não fechava— e ganhei a rua sem olhar para trás.

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Uma resposta

  1. “Quem viver saberá”. Adorei, meu amigo. Como boa virginiana só fiquei preocupada com o chuveiro q vc deixou ligado ao fugir dali. O meu conto será num tom jocoso. Parabéns. Bjs 1000

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